STF julga ministro e eleitor julga políticos

Para tornar mais grave a crise política que assola a Nação, escalando a descrença generalizada contra os poderes, vem a crise da Suprema Corte, a última instância da Justiça- que pela vez primeira reúne-se para decidir sobre o destino de um de seus membros mais poderosos, o ministro Alexandre de Moraes, o qual, bem há tão pouco tempo recebia louvores e incutia medo.

Agora, envolvido em rumoroso escândalo, Moraes vai ter que se justificar em sessão aberta e transparente convocada pelo presidente Fachin, a respeito da relação promíscua que mantinha com o maior fraudador de bancos de todos os tempos Daniel Vorcaro. Essa sessão ficará marcada nos anais da Corte como algo inédito em toda a História do Tribunal que nunca cortou na sua própria carne, ao julgar um de seus pares por conduta incompatível com o uso da toga. São esperadas muitas emoções nessa sessão da próxima terça-feira.

Todos dizem que a política mudou. Na minha opinião, mudou para pior. Temos um eleitorado meio ensimesmado com os poderes.

O eleitor de um modo geral, carrega a convicção de que todo político é corrupto. Além disso, até pela ambiguidade e desfaçatez que se espalham sem freio por todas as esferas de poder, o cidadão comum faz cara feia e despreza a política como uma maçã podre. 

Muitos pensam assim, todavia, mesmo pensando assim, repetem o voto da última eleição sem se importarem com o envolvimento de seu candidato em falcatruas.

É claro que se trata de um exagero — nem todos os integrantes da classe política merecem o julgamento de serem apontados como corruptos.

No entanto, a conduta de muitos que estão no topo do poder, na maior cara lisa, apesar da denúncias com cunho de verdade, se dizem inocentes. E o povo em frente à TV ri à toa sem acreditar, achando que é história de Trancoso.

É inevitável imaginar o custo das campanhas eleitorais para todos os cargos eletivos.

Aos recursos legalmente destinados às eleições somam-se, segundo inúmeras investigações realizadas ao longo dos anos, práticas que insistem em desafiar a legislação, como o caixa 2. Esse dinheiro por debaixo dos panos provém da pressão exercida sobre empresas prestadoras de obras e serviços, cobrando-lhes um “pedágio” para receber o que já executaram, ou por doadores voluntários que não querem se expor.

Os partidos políticos, sobretudo os maiores, dispõem do financiamento público das campanhas e ainda contam com recursos do fundo partidário distribuídos a candidatos majoritários ou proporcionais durante o período eleitoral. A soma de tudo isso ultrapassa R$ 6 bilhões, dividida entre os 15 partidos que recebem essa “dádiva” paga pelo contribuinte.

Há ainda um componente que desequilibra a disputa: o poder político das emendas parlamentares impositivas, que podem chegar a R$ 70 milhões por ano para cada deputado ou senador — variando, conforme o prestígio do parlamentar, cujo valor pode atingir a casa dos R$ 100 milhões.

Dificilmente quem detém tal montante de recursos perderá a eleição. Aquele que é novo ou que já se afastou e sonha em voltar, quem se aventura a enfrentar esse sistema? Poucos.

Administrados com habilidade política, esses instrumentos ampliam a visibilidade de quem já ocupa o mandato e tornam profundamente desigual a competição para quem pretende ingressar na vida pública ou continuar nela apenas com ideias, trabalho e credibilidade.

Isso acontece porque o Legislativo capturou o orçamento federal, quase aprisionando o presidente em sua ação para priorizar investimentos que poderiam transformar a infraestrutura do país e as condições de vida de quem mais precisa. Melhorias na educação e na saúde, rodovias,  ferrovias, segurança, habitação, esgotamento sanitário, hidrovias e tantas outras obras e benefícios são adiados simplesmente porque o Executivo não dispõe mais de verba para executá-las — fora casos que amiúde veem à tona de emendas que se convertem em balcão de negócios para fins eleitorais.

O regime presidencialista brasileiro deixou de representar sua verdadeira essência. O deputado ou senador se elege por um partido mas quando assume o mandato, se for da oposição, quase sempre se alinha ao governo vitorioso, na busca de nacos de poder.

O controle do orçamento – prerrogativa assegurada pela Constituição ao Poder Executivo -, está sendo represado pelo Legislativo. É o parlamentarismo às avessas.

O voto é dever cívico, mercadoria não é. Quando o voto é negociado, a cidadania sai derrotada. A democracia existe no papel.

Em outros tempos, a política era exercida como vocação, inspirada pelo dever de servir, não pela ambição de receber.

Os homens públicos, levavam a sua propaganda no carro de som, percorriam ruas e feiras de cidades e povoados, apresentando propostas em comícios e bate-papos, apertando mãos e pedindo confiança. O voto era conquistado pela palavra, pela história de vida e pelo compromisso assumido diante do eleitor.

Hoje, o cenário é outro. Não são poucos os brasileiros que passaram a acreditar que todo político é corrupto — julgamento um tanto injusto, como disse acima, porque a generalização sempre agride a verdade.

Se o político tem culpa, o eleitor que escolhe do jeito que dá, sendo o senhor do voto, tem a mesma culpa se for atraído só pela vantagem imediata sem atinar para a qualidade do candidato e para o futuro da Nação.

Ainda existem homens e mulheres que ingressam na política movidos pelo desejo sincero de servir à coletividade. O problema é que os maus exemplos costumam falar mais alto, e se multiplicam às escâncaras.

Escândalos sucessivos, desvios de recursos, negociações incompatíveis com a ética e explicações cada vez menos convincentes ocuparam o espaço que antes pertencia ao debate de ideias.

A política, que deveria ser o espaço do debate, da inteligência e do compromisso com o bem comum, passou, em muitos casos, a exigir um investimento financeiro incomparável com a realidade da maioria dos cidadãos honestos.

Poucos conseguem competir em condições de igualdade. Muitos sequer tentam. E assim a democracia perde um de seus maiores patrimônios: a possibilidade de renovação.

Não é o preço da campanha que mais assusta — campanhas sempre tiveram custos. O que preocupa é perceber que, para alguns, o voto deixou de representar consciência e esperança para adquirir valor de mercado.

Quando isso acontece, não é apenas a eleição que fica mais cara. É a própria democracia que começa a pagar a conta.

 

esperemos como o eleitor vai julgar os políticos nas eleições de 4 de outubro de 2026.

Antonio Carlos Valadares
Ex-governador do Estado, ex-senador por Sergipe

 

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ex-senador da República. Fui Lider/PSB, vice-pres/Senado, pres/CDR, pres/ConselhoDeÉtica, pres/CAS, pref/S. Dias,dep estadual/pres da ALESE, dep fed, Sec/Educ, vice-gov, gov, senador 3x