O Candidato

Nas campanhas políticas por este Brasil afora muitas coisas são ditas e prometidas pelos candidatos para impressionar eleitores e ganhar votos. Para enfeitar o pavão, o marketing contratado a peso de ouro tem que ser competente para mostrar as virtudes e esconder os defeitos do candidato.

O marqueteiro, geralmente, é uma pessoa fria na estratégia a seguir, discreta nos seus afazeres, contorcionista na arte da dissimulação e convincente ao apresentar seu produto, o candidato.

Tem que criar emoção em tudo que faz na telinha, no rádio e nas redes sociais em benefício do candidato. Tem que mostrar que o candidato é cuidadoso com o erário, e que está preparado pra fazer tudo bem feito, com devotamento e conduta retilínea para atender ao sagrado desejo do povo em ter uma educação, uma saúde ou uma segurança pública de qualidade, e tudo o mais que for necessário para romper a barreira da pobreza.

O empresariado precisa ser convencido de que não haverá aumento da carga tributária, e que a receita que vem dos impostos que eles pagam será revertida em serviços e obras para todos os cidadão e cidadãs. O progresso do Estado garante maiores lucros para os que se dedicam a investir na iniciativa privada.

O candidato tem que se comprometer com fornecedores e executores de obras púbicas assegurando-lhes o recebimento integral de suas faturas sem atrasos ou procrastinações de tudo aquilo que as suas empresas realizarem licitamente.

O candidato é um ser especial, que tem resposta para soluções intricadas, adquiriu experiência pra resolver, é corajoso para fazer mudanças e colocar o governo no rumo certo.

Nos debates mostra segurança, conhecimento e desenvoltura. É um político sorridente e agradável que passa a impressão de ser receptivo e de fácil acesso, um cidadão que respeita as divergências como deve se portar um democrata. Diz que está disposto a organizar uma agenda para receber as pessoas do povo no Palácio de Despacho para ouvir suas opiniões. E gosta das criancinhas, que são o futuro da Nação.

Se o candidato é evangélico fala como se tivesse no púlpito da igreja, mencionando o nome de Jesus quase sempre para mostrar a sua religiosidade. A Bíblia para ele é o passaporte da confiança dos fiéis na sua palavra, dizer com firmeza que é conservador, destacar a importância da família, vestir uma camisa verde e amarelo são atos que ajudam a atrair votos desse ramo religioso e do conservadorismo que abomina a esquerda.

O candidato não deve esconder suas origens humildes, ao contrário, se for um filho de vaqueiro, de uma professora, de um barbeiro, de uma costureira, de um operário, ou de um roceiro que pegou um pau de arara até a cidade grande atrás de um emprego, isto o identifica com a maioria da população sofredora, conquistando a simpatia de muitos eleitores. O lado do candidato só tem doçura e eficiência, trabalho e honestidade, não lhe faltando as virtudes da humildade e do bom coração.

As festas tradicionais como o carnaval e o São João farão parte do calendário anual do governo.
Tem que ser natural ao distribuir beijinhos, juntando as mãos e fazendo um coração, simbolizando o seu amor para os acenos, não podendo faltar apertos de mão e abraços para compor um cenário de alegria contagiante.

As cenas na TV têm que ser leves, alegres e coloridas, exibindo um cenário róseo, o céu é sempre de brigadeiro como deve ser a vida sonhada por todos. O candidato repudia com veemência fazer traquinagens com dinheiro público. E que tudo será feito com transparência, de um modo tão claro como a luz do dia.

O eleitor tem que ser convencido de que o candidato é o melhor, e, que, nas horas de crise, surge como um super homem.

Aparece arregaçando as mangas e, no governo, a partir do primeiro dia e em todos os dias, será mãos à obra sem parar, com as fórmulas mágicas de quem possui o poder de prever e vir de imediato com a solução.O candidato não pode esquecer dos servidor público que carrega nas costas o trabalho de impulsionar a máquina do Estado. Por isso, o candidato tem um olhar generoso para com esses trabalhadores, comprometendo-se de que a folha nunca será paga com atraso, e que os aumentos serão concedidos sempre acima da inflação.

Quando o candidato tem a máquina em seu favor, principalmente em momentos de dificuldades – como os que vive hoje o Brasil -, os apoios vêm aos borbotões, porque a estrutura em sua volta é forte e quase intransponível. Os cargos de livre escolha, os famosos CCs, são acionados com o aviso de que se o resultado for negativo na certa vão ser exonerados e substituídos pelo vitorioso. É ganhar ou perder.

O bom marketing cria verdadeiras histórias de Trancoso, para colocar o candidato na frente e vencer a corrida eleitoral. Tem que ser também criativo, e até certo ponto, impiedoso, no desmonte do adversário. O ataque nunca pode ser frontal para não irritar o eleitor. Uma meia verdade aqui, uma mentirinha acolá, com muita cautela pra não ser punido pela Justiça Eleitoral, vai danificando aos poucos a imagem do adversário, desqualificando-o para o cargo. Como faz um jogador de box, insistindo em bater na ferida até nocautear o seu oponente.

Pode ser que, numa fase em que o candidato estiver em baixa e as pesquisas confirmem a preferência por um de seus adversários, ele mude a estratégia, desferindo pancadas violentas contra aquele que passou-lhe à sua frente, mesmo sob o risco de ser multado pelo TRE, e de os seus programas de tv e rádio serem colocados fora do ar. É o ataque rasteiro, é o tudo ou nada, é o desespero do perdedor de véspera, uma estratégia que raramente o beneficia.

Porém, o candidato mais precavido faz logo um acordo por debaixo dos panos com um candidato sem esperança de ganhar para meter o pau no que que está na frente, e até nos debates fazer-lhe perguntas embaraçosas na tentativa de constrangê-lo e perder votos.

Por último, e não menos importante, no que toca à honestidade, o candidato tem que ser como a mulher de César, tem que ser não apenas honesto mas parecer honesto. Se for de família rica não precisa de dinheiro de ninguém, muitos eleitores assim pensam, mas se for descendente de uma família modesta, basta ver o passado do candidato. Para o povão, em ambos os casos, todos esses predicados podem funcionar como um verdadeiro atestado de honestidade.

Resta saber, se na prática, tudo será como foi dito, ou mesmo acima ou abaixo do que foi imaginado.

O importante é que a democracia, o governo do povo, pelo povo e para o povo (Abraham Lincoln), foi praticada nem que seja errando o voto.

Eleições periódicas viram escolas de aprendizagem para o eleitor aprender melhor como votar na próxima vez.

*Antonio Carlos Valadares
Especialista em Direito político e prática eleitoral, advogado

O Pescador do Velho Chico

O Pescador do Velho Chico

Conto

Ali, num casebre bem perto do Rio São Francisco, num lugar paradisíaco, distante mais ou menos uma légua da cidade, vivia Pedro, o pescador, com sua mulher e seu único filho.

As redes e os anzóis pendurados no quintal mostravam a ocupação do trabalhador. Além das ferramentas indispensáveis, dispunha de um pequeno barco de madeira com motor de popa.

Os ensinamentos do velho pai

Aprendera com o pai, desde a adolescência, a pilotar pequenos barcos nas águas calmas ou encrespadas do rio. Ao chegar à idade adulta, já sabia também construir embarcações de madeira — outra arte que o velho lhe ensinara com paciência, na visão de que seu filho seguisse o seu riscado e se tornasse um bom profissional.

O barco construído pelas próprias mãos

Aquele barco, que era seu meio de vida, fora construído por suas próprias mãos, com muito cuidado, na intenção de usá-lo enquanto tivesse forças para trabalhar. Escolhera para a embarcação as dimensões de 5,0 m × 1,25 m × 0,45 m. Usara aroeira na quilha, madeira resistente que suportava o impacto contra bancos de areia; cedro nas laterais, mais leve e mais fácil de puxar para as margens; e jatobá na popa do motor, capaz de resistir ao repuxo e à vibração da rabeta.

O amanhecer no Velho Chico

O dia amanheceu. Olhou para o céu e previu, pelas nuvens esparsas, que a chuva passaria longe do seu trajeto, no que ainda restava de navegável no Velho Chico.

As marcas do desastre ecológico

O assoreamento do rio São Francisco transformara a paisagem ribeirinha, interrompendo a navegação em vários trechos. A invasão das águas e o avanço do mar deixaram submersas comunidades inteiras, tendo como marco histórico o povoado Cabeço, em Brejo Grande — fenômeno ocorrido após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó.

Todavia, como sinal indelével daquele desastre ecológico, ainda hoje permanece visível a ponta do farol, solitário e inclinado dentro d’água, como a denunciar que ali embaixo, nas profundezas do rio, por ação ou descuido do homem, encontram-se submersos os escombros de uma povoação inteira.

O retirante do Povoado Cabeço

Pedro foi um dos retirantes que tiveram o infortúnio de perder a moradia. Depois da destruição das casas, mudou-se para um lugar mais seguro e promissor às margens do rio, no povoado Ilha do Ouro, em Porto da Folha.

Os covos e a pesca do pitu

Pedro puxou o manípulo do motor, que logo ganhou vida. Acelerou e conduziu o barco em direção ao leito do rio. Mas, antes da pesca costumeira do curimatã pacu, do dourado ou do surubim, distribuiu os chamados covos — armadilhas para a captura do pitu. O covo manipulado por Pedro era uma peça cilíndrica, semelhante a um funil, com entradas que facilitavam a penetração do crustáceo, mas impediam sua saída.

Com a maestria de quem aprendera o ofício desde cedo, Pedro depositou no fundo do rio, próximo a pedras e raízes, várias dessas armadilhas, esperando recolher, ao fim do dia, boa quantidade de pitu — iguaria que compõe uma variedade de pratos capazes de atrair turistas de todos os cantos.

A experiência gastronômica de saborear um pirão de pitu com surubim, para quem já esteve na Ilha do Ouro, costuma despertar o desejo de retornar, não apenas pelos sabores e pratos apetitosos mas também pelas belezas naturais do Velho Chico.

Rumo às águas da pesca

Instaladas as armadilhas, tocou o barco mais adiante, seguindo uma rota onde esperava encontrar mais peixes. O dia estava esplêndido. O motor obedecia ao comando do leme, silencioso e sem falhas.

O céu mudou de cor sem avisar.

Pedro notou primeiro pelo silêncio — os pássaros calaram, o vento esfriou de um golpe, e o rio, que sempre lhe parecera um velho amigo, ganhou um tom escuro e inquieto. Antes que ele pudesse recolher as redes, o trovão rasgou o ar como uma faca, e a chuva caiu grossa, furiosa, como se o céu inteiro desabasse de uma vez só.

— Meu Deus, me ampara! — ele gritou, mas a voz sumiu engolida pelo rugido da tempestade.

As ondas vieram de todos os lados. O barco — seu velho e fiel companheiro de tantos amanheceres — balançou uma vez, duas, e na terceira não voltou mais. As redes se perderam nas águas negras, e Pedro foi junto, puxado para baixo por um redemunho que parecia ter fome.

Lá embaixo, no escuro e no frio, ele não entrou em pânico. Não agora, pensou. Não assim.

A correnteza, a dança das ondas e as pedras pontiagudas

Quarenta anos de rio corriam no sangue dele. Sabia como o rio respirava, onde ele torcia, onde ele engolia. Deixou o corpo afundar um segundo — só um — e depois deu uma braçada longa, forte, em diagonal, cortando a correnteza em vez de lutar contra ela. Seu pai lhe ensinara isso quando tinha seis anos: “Filho, água brava você não vence de frente. Você engana.”

Mas aquilo era outra coisa, um ronco da natureza

Ele ouviu antes de ver — aquele ronco profundo e sem piedade, de pedra e espuma, que todo pescador do rio conhece e carrega como um aviso dentro do peito. A correnteza o arrastava rápido demais, e as pedras surgiam como dentes negros entre a brancura furiosa da água revolta. Ele bateu o ombro numa delas com uma força que doeu até o osso — arrancou a pele do braço, viu o sangue se dissolver na água escura em fios finos, quase bonitos, e por um instante sentiu o rio vencendo.

A correnteza o rodou como se fosse um galho seco. Ele tentou se orientar e não conseguiu distinguir onde era cima, onde era baixo. Os pulmões ardiam. Uma pedra arranhou sua costela. Outra bateu no joelho com um estalo que ele sentiu mais do que ouviu. Em algum momento, a cabeça emergiu por um segundo — tempo suficiente para engolir ar e espuma — e logo voltou para dentro.

É aqui, pensou, com uma clareza estranha. É aqui que o rio me leva.

A Mão Invisível

Foi nesse pensamento que algo aconteceu.

Não foi um relâmpago de luz nem uma voz que desceu do céu — foi diferente, mais fundo e mais real do que qualquer coisa que ele poderia ter inventado. No meio de todo aquele caos de água e pedra e escuridão, uma calma que não era dele desceu pelo centro do peito, devagar e firme, como âncora. Não era resignação. Era outra coisa — era presença.

Seus braços, que já não obedeciam, obedeceram. Seus olhos, que mal enxergavam na espuma cega, encontraram — não sabe explicar como até hoje — uma fresta de água mais escura entre as pedras, à esquerda, um caminho que não deveria estar ali mas estava.

Vai, Pedro.

Não era voz. Era certeza.

Ele foi.

Três braçadas. Quatro. Os pulmões em brasa. As pedras roçando os joelhos. Uma onda o empurrou de lado e ele usou o empurrão, não brigou com ele, deixou o rio fazer metade do trabalho como se alguém soubesse da física melhor do que ele. E de repente — silêncio. Água mansa. Uma enseada pequena protegida por duas árvores tombadas, onde a correnteza não chegava.

Pedro agarrou um galho, puxou o corpo para a margem e caiu de bruços na lama fria.

Ficou assim por um tempo que não soube medir — podia ser um minuto, podia ser uma hora. Só respirando. Deixando o peito dolorido subir e descer, subir e descer, como se precisasse ter certeza de que ainda funcionava.

Quando levantou a cabeça, a chuva tinha fraquejado. Um fio de luz laranja rasgava o horizonte do outro lado do rio. As corredeiras ainda rugiam lá atrás, mas daqui pareciam distantes, quase irreais, como uma história que ele tivesse ouvido de outro.

Pedro se sentou na lama, olhou para as mãos abertas — cortadas, tremendo, vivas — e chorou. Não de medo, nem de dor. Chorou como chora quem acaba de compreender que foi sustentado por braços maiores do que os seus, no momento exato em que os seus já não bastavam.

— Obrigado — ele sussurrou, para o rio, para o céu, para o silêncio que ficou depois da tempestade. Quando se fala com Deus, qualquer direção serve.

O velho barco teimoso

Encolhido na margem, coberto de lama e folhas, dormindo aos solavancos com o frio grudado na roupa encharcada. Quando o sol nasceu de verdade — laranja primeiro, depois dourado — Pedro se levantou com dificuldade, o joelho inchado, o braço enfaixado num pedaço da própria camisa, e começou a caminhar pela beira do rio.

Não tinha esperança de achar muita coisa.

Achou o barco duas horas depois.

Estava encalhado numa curva do rio, abraçado a um banco de areia como se tivesse escolhido aquele lugar para descansar. A madeira estava um pouco rachada num lado — coisa que ele mesmo podia consertar —, as redes perdidas, um dos bancos arrancado. Mas estava lá. E o motor, velho e teimoso como o próprio Pedro, ainda estava pregado na popa, exatamente onde sempre esteve.

Pedro ficou parado na margem olhando por um longo tempo.

Então entrou na água até a cintura, colocou a mão na lateral do barco, e não disse nada. Não precisava. Havia entre homem e barco uma linguagem mais velha que as palavras — a linguagem de quem enfrentou a mesma tempestade e momentos de aflição.

Com esforço, com dor, com a teimosia que só os anos de rio ensinam, foi empurrando o barco de volta para as águas calmas.

O motor, pelos solavancos que tomara, deu-lhe um átomo de pessimismo- de que não iria pegar. Verificou as velas de ignição. Estavam encharcadas. Fez uma limpeza, a melhor que pôde. A bateria ainda estava no lugar, mas o conector do negativo quebrara. Por sorte, encontrou um pequeno alicate preso a uma das gavetas do banco. Emendou o conector, ligando as duas pontas da bateria. Saiu faísca. “Bom sinal! vou pra casa montado!”, disse ele. Puxou a corda para ligar o velho motor. Fez três tentativas, até que na quarta vez, motor tossiu, engasgou, e depois, obediente, ronronou como uma saudação ao pescador.

Pedro sorriu pela primeira vez desde a noite anterior.

Guiou o barco para casa devagar, pelo meio do rio, com o sol da manhã na cara. O rio estava quieto agora, largo e manso, como se a tempestade nunca tivesse existido. Mas existiu — Pedro tinha as marcas no corpo para provar.

E tinha algo mais: a memória daquela calma impossível no meio das águas turbulentas, daquela mão invisível que o empurrou quando ele não tinha mais para onde ir.

Isso ele não contaria para todo mundo. Mas também não esqueceria jamais.

O Lar

A canoa encostou no barranco de sempre com um barulho mole, familiar, o mesmo de todos os dias. Mas nada naquele dia era como todos os dias.

Pedro amarrou a corda no tronco com as mãos ainda tremendo. Ficou um instante sentado no barco, olhando para a subida até a casa — aquela ladeirinha de terra batida que havia subido milhares de vezes sem pensar — e de repente ela lhe pareceu a coisa mais bonita que já tinha visto na vida.

Começou a subir devagar, mancando do joelho, o braço enfaixado na camisa suja de lama e sangue seco. A cada passo, o coração batia mais forte, não de cansaço, mas de algo que não tinha nome certo — uma mistura de gratidão e saudade de quem quase não voltou.

Foi Juninho, o seu filho, quem viu primeiro.

Estava no terreiro brincando com um graveto quando ergueu os olhos e congelou. Piscou duas vezes, como se não acreditasse. Depois soltou o graveto e saiu correndo, gritando com toda a voz que tinha nos pulmões:

— Pai! Pai voltou! PAI!

Pedro mal teve tempo de abrir os braços.

O menino bateu no seu peito como um pássaro que não sabe freiar, agarrou a cintura do pai com os dois braços e não largou mais. Pedro sentiu o cheiro de criança no cabelo do filho — aquele cheiro simples, de sol e de casa — e fechou os olhos com força.

— Tô aqui, meu filho. Tô aqui.

A voz saiu rouca. Quase não saiu.

Mariana apareceu na porta um segundo depois. Estava com o avental ainda na mão, o cabelo preso de qualquer jeito, e os olhos — Pedro viu de longe — os olhos já estavam vermelhos de uma noite inteira de choro e de reza.

Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. E nenhum dos dois conseguiu falar nada por um momento que durou muito mais do que um momento.

Então Mariana desceu os degraus da varanda quase tropeçando, atravessou o terreiro sem se importar com os pés descalços na terra molhada, e quando chegou nele não abraçou — desabou. Enterrou o rosto no pescoço do marido e chorou de um jeito que Pedro nunca tinha visto — chorou com o corpo inteiro, com os ombros sacudindo, com aquele choro fundo que só sai quando o medo foi grande demais para caber dentro da gente.

— Eu achei que você tinha ido — ela disse entre soluços, a voz abafada contra o ombro dele. — Eu achei que dessa vez o rio tinha te levado. Fiquei a noite toda pedindo, Pedro. A noite toda.

— Eu sei — ele disse baixinho, apertando-a contra o peito com o braço bom, o queixo pousado na cabeça dela. — Eu sei, Mariana. Ele me ouviu. Ele me ouviu também.

Ficaram os três ali no meio do terreiro — pai, mãe e filho — abraçados sem pressa, sem vergonha, enquanto o sol da manhã batia de lado e o rio lá embaixo corria manso, como se não tivesse feito nada.

Juninho, ainda agarrado à cintura do pai, puxou a camisa com o dedinho e perguntou com aquela seriedade pequena e grave que só criança tem:

— Pai, você tava com medo?

Pedro olhou para o filho. Pensou nas pedras, na escuridão, no momento em que o rio quis levá-lo. Pensou naquela calma impossível que desceu no meio de tudo.

Abaixou-se devagar até ficar no nível dos olhos do menino, segurou o rosto pequeno nas duas mãos e disse a verdade:

— Tava sim, meu filho. Muito. Mas Deus não me deixou sozinho lá dentro não.

Pedro se levantou, olhou para a casa, para a varanda, para o rio lá embaixo brilhando no sol da manhã.

Respirou fundo.

Estava em casa.

E dessa vez, mais do que qualquer outra vez em quarenta anos de rio, soube o peso e a graça que existem no amado Velho Chico.

Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador e ex-senador

 

Aposentadoria não é fim: é escolha

Crônica

Seu João, aos 80 anos, é uma figura conhecida e respeitada no bairro onde mora e trabalha. Dono de uma oficina mecânica modesta, construiu ao longo de décadas uma reputação sólida: competência técnica, honestidade no preço e respeito ao cliente. Qualidades raras em tempos de cobranças abusivas e serviços apressados.

Especialista na recuperação de motores de carros antigos, não se recusa a enfrentar os desafios dos veículos modernos. Executa ambos com o mesmo cuidado e eficiência, razão pela qual sua oficina permanece sempre movimentada — não apenas por clientes, mas também por amigos que ali aparecem para conversar enquanto ele trabalha.

Entre um ajuste no carburador, a troca de cabos de vela ou mangueiras do sistema de arrefecimento, Seu João participa das conversas, observa, opina. O ouvido atento acompanha o burburinho da oficina enquanto as mãos seguem firmes no serviço.

Seu conhecimento foi adquirido na prática, em cursos técnicos e oficinas de concessionárias. Com o mesmo zelo, transmite tudo o que sabe aos ajudantes mais jovens. Longe de ter ficado parado no tempo, percebeu cedo a necessidade de atualização. Buscou cursos na internet, aprendeu mecânica e eletrônica e passou a atender também veículos com injeção eletrônica.

Homem simples, sem formação acadêmica, orgulha-se dos filhos que ajudou a formar com o fruto do próprio trabalho: Édson, economista atuando em São Paulo, e Vera, médica cirurgiã em Aracaju.

Com saúde plena, raciocínio afiado e disposição intacta, Seu João começou a refletir sobre a velhice. Encerrar a atividade lhe pareceu impensável. O afastamento da oficina significaria abrir mão não apenas do trabalho, mas do convívio, do movimento e do sentido que sempre deu à vida.

Após conversar com a família, decidiu continuar no batente. Para ele, a ociosidade seria mais nociva que o esforço diário. A decisão foi recebida com alívio pelos clientes e com apoio dos familiares.

Em um país que frequentemente despreza a experiência e confunde renovação com substituição apressada, a escolha de Seu João é exemplar. Mostra que o novo não precisa eliminar o saber acumulado, mas dialogar com ele.

A aposentadoria, portanto, pode esperar.

Antonio Carlos Valadares – advogado

 

Violência e Intolerância ameaçam a civilização

Um mundo cada vez mais inseguro

A violência e a intolerância deixaram de ser episódios isolados e passaram a compor o cotidiano das sociedades. No Brasil e no mundo, cidadãos pacatos convivem com o medo, enquanto conflitos armados, crimes organizados e discursos de ódio avançam sem freios.

Terrorismo e armas fora de controle

Na Europa, o terrorismo segue produzindo mortes e instabilidade. Nos Estados Unidos, ataques a escolas chocam o mundo e expõem uma tragédia recorrente: crianças assassinadas, enquanto o comércio de armas continua praticamente sem restrições, alimentando um ciclo de violência difícil de conter.

A guerra do tráfico no Brasil

No Brasil, a violência assume contornos ainda mais perversos. A guerra travada pelo tráfico de drogas ultrapassou as ruas e alcançou o sistema prisional. Facções criminosas disputam o comando de um mercado ilícito bilionário, promovendo massacres e impondo um estado permanente de insegurança à população.

Ucrânia: a face cruel do autoritarismo

No cenário internacional, a guerra na Ucrânia revela a brutalidade do autoritarismo. O ditador russo Vladimir Putin mantém ataques constantes com mísseis e drones contra Kiev e outras cidades, matando civis, destruindo infraestrutura essencial e conduzindo milhões de pessoas ao desespero.

Políticas ineficazes e retrocessos democráticos

Diante desse quadro, torna-se evidente que as políticas adotadas para conter a violência e a intolerância não têm surtido os efeitos desejados. Em muitos casos, produzem o efeito inverso, agravando o problema e espalhando seus danos pelo tecido social.

Também preocupa a postura dos Estados Unidos, nação historicamente associada à defesa da democracia. Sob o governo de Donald Trump, medidas econômicas e políticas passaram a ameaçar a soberania de outros países, com a imposição de tarifas elevadas a nações que não se alinham aos seus interesses. A chamada nova ordem mundial, sob o prisma econômico, segue por um caminho incerto.

O risco do terrorismo de Estado

Cresce, ainda, a ameaça do terrorismo de Estado, praticado por ditaduras que se escondem sob o falso discurso democrático. O perigo de que líderes autoritários, em posse de armas nucleares, levem o mundo a uma catástrofe global não pode ser subestimado.

Um pacto global pela paz

Evitar o retorno aos tempos sombrios da Guerra Fria é uma exigência histórica. Hoje, o poder destrutivo das armas nucleares torna qualquer conflito potencialmente letal e irreversível.

Vivemos tempos difíceis. Cabe à humanidade escolher entre a escalada da violência ou a construção de um novo pacto de paz, baseado no respeito à vida, na cooperação entre as nações e na preservação da própria civilização.

Antonio Carlos Valadares

Advogado, ex-governador e ex-senador

Alessandro versus André: pra resolver só com a sabedoria de Sócrates e a cabeça de Einstein

O senador Alessandro pisou na bola. As suas declarações intempestivas insinuando que o seu companhas de chapa André Moura, poderia ser preso pela polícia a qualquer momento chocaram o meio político, e acenderam a luz vermelha da discórdia, e da divisão da chapa do governo, colocando na avenida da alegria o bloco oposicionista, neste período de carnaval. 

Caso disponha nesta hora de algum indício ou prova – para ser digno do elevado cargo que ocupa – Alessandro deveria apontar indícios ou provas de algum crime cometido por André que autorize a polícia a prende-lo, sob pena de o ofendido ingressar na justiça com uma ação criminal ou civil, por danos morais, em defesa de sua honra, providência que este deveria tomar de imediato – iniciativa que pode não ser aconselhável no momento. 

Todo o mundo está a perguntar: se o senador Alessandro Vieira, acha que a chapa não tem condições morais de enfrentar o pleito para o senado, por que então aceitou o acordo, já que, para selar o entendimento comandado pelo governador Fábio Mitidieri, apertou a mão de André Moura, cuja cena saiu em todas as mídias estampada numa foto incontestável.

No mínimo houve aí uma incoerência do Senador Alessandro ao detonar André, tornando impossível de agora por diante uma convivência civilizada e pacífica. 

André está coberto de razão ao tornar pública a sua indignação pela hostilidade manifestada contra ele pelo senador-delegado. E o governador acertou ao solidarizar-se com o ofendido,  restando-lhe, pela repercussão do caso, adotar medidas emergenciais para não prejudicar a sua própria reeleição. 

Ao desferir um tiro premeditado numa banda importante da coligação, o senador-delegado Alessandro não parece preocupar-se com a continuidade do acordo, em outras palavras, recua de sua pretensão em juntar-se a André. 

Simples assim, os dois não cabem num mesmo palanque. 

A ofensa de Alessandro é um recado público muito claro que contribui para o desfazimento do acordo, deixando o governador à vontade para decidir a respeito. Tem que ser o mais rápido que puder, pesando antes as consequências advindas dessa solução política. É analisar, com a sabedoria de Sócrates e a cabeça de Einstein, o que fazer para retomar a sua posição de liderança sob ameaça.  

Se para muitos foi uma grande surpresa o lançamento antecipado da chapa majoritária do bloco governista para enfrentar um hipotético candidato da oposição, para quem entende um mínimo de política não será surpresa nenhuma, como remédio amargo, mas imprescindível, escolher outra chapa majoritária para colocar no terreno do esquecimento a desavença pública que atingiu sem dúvida a autoridade maior do processo, o governador Fábio Mitidieri, que agiu de boa fé, confiante na lealdade entre os componentes da chapa. 

Não é uma decisão fácil. Um desafio para Fábio Mitidieri. 

Divisão na política paga seu preço. 

Em situações difíceis como essa, às vezes, por uma imperiosa necessidade, é preciso agir, mesmo que doa. Nem sempre a política nos coloca no conforto de um céu de brigadeiro.  

Afinal, como nos ensina o velho provérbio, “não se faz um omelete  sem quebrar os ovos”. 

Antonio Carlos Valadares, ex-governador e ex-senador 

 

A Defesa Que Virou Lenda

Conto

O menino que aprendeu a voar nas peladas

Filho de uma família humilde – o pai, fora craque do time da cidade -, cresceu adorando o futebol. Nas peladas, Gilmar, destacava-se por sua perfomance como goleiro, pegando a bola com incrível facilidade por mais certeiros e violentos que fossem os chutes desferidos contra a meta que ele defendia.

O nascimento de uma muralha chamada Gilmar

Em face de suas qualidades inegáveis, foi convocado pela diretoria de futebol para ser o goleiro principal da seleção da cidade. O time (Ateniense Sport Clube – ASC), tinha um conjunto excelente, a bola preferivelmente no chão, de pé em pé, parecia uma combinação perfeita, com regra e compasso. Os adversários se rendiam ante a aplicação de seus jogadores.

O goleiro era a segurança, a barreira quase instransponível, a proteção e a garantia de que o gol dificilmente seria vazado.

O orgulho do Ateniense e da Cidade

A cidade tinha orgulho de sua equipe. A camisa fora desenhada com esmero, com listras amarelas e pretas, que fazia o gosto da torcida. O time foi premiado, subiu de categoria, e passou a fazer parte do campeonato nacional.

Vencendo todas as partidas que disputou, ganhou a taça de campeão, porém, quem mais contribuiu foi o goleiro, que fechou o gol, pegando bolas impossíveis com a rapidez de um gato. Gilmar, foi reconhecido por todos e pela imprensa esportiva como o melhor jogador em várias competições.

Quando o tempo começou a marcar contra

Os anos se passaram.

Mas o tempo, esse adversário invisível, começou a cobrar o preço das glórias. Os reflexos do goleiro já não eram os mesmos, os joelhos doíam nas manhãs frias e o silêncio do vestiário passou a dizer mais que os aplausos de outrora. Vieram as críticas, os cochichos nas arquibancadas, o banco de reservas.

A Despedida anunciada e seu último desafio

Foi de sua iniciativa o gesto de encostar as chuteiras. Na despedida de sua carreira monumental, o técnico fez questão de escalar Gilmar na partida decisiva do campeonato nacional.

Uma homenagem cercada de risco e preocupação por parte da torcida. Mas o técnico, um profissional experiente, muito confiante no seu trabalho, passou a semana inteira treinando Gilmar para o embate que definiria qual o melhor clube da competição naquele domingo à tarde.

O Ateniense, concentrado na Toca do Tigre, esperava o adversário que queria tomar-lhe a taça de campeão. Chamava-se Esparta Futebol Clube (EFC).

Para erguer a Taça de campeão o Ateniense bastava empatar com a equipe oponente.

O domingo em que o Estádio prendeu a respiração

Ao entrar em campo, Gilmar, o goleiro, teve banda de música em sua homenagem, houve pipocar de fogos de artifício, e várias faixas estampando o seu nome apareceram nas arquibancadas.

O estádio estava cheio como nos velhos tempos. Não por obrigação, mas por gratidão. A torcida sabia que aquele não era apenas um goleiro — era um símbolo.

Começou a partida. Jogo muito pegado, era visível o nervosismo de ambas as equipes, até que o camisa 7,  Bené,  da equipe adversária, ao centrar uma bola na pequena área, o goleador Nilton,  camisa 9, cabeceou com violência  e a bola entrou na gaveta.

A torcida não culpou o goleiro, o gol fora indefensável. 5 minutos após um gol de bicicleta do número 10 do Ateniense, Gerson, tirava a alegria da torcida adversária. 1 a 1 no placar.

O pênalti que decidiria o campeonato

Veio o segundo tempo, o empate persistia, e parecia dar ao Ateniense o título de campeão. Mas, como futebol é uma caixa de segredos, nos instantes finais, o juiz marcou um pênalti em favor do Esparta. O estádio inteiro prendeu a respiração.

Os locutores nas suas cabines de rádio gritavam que Juiz dera apenas 2 minutos de prorrogação. A placa levantada na lateral do gramado confirmava. Em resumo, previa-se que após a cobrança do pênalti o Juiz poderia dar a partida por encerrada.

Quer dizer: se a bola entrasse o campeão seria o Esparta.

Gilmar, caminhou lentamente até a linha do gol. Limpou o rosto do suor. O juiz orientou-o no sentido de não se afastar da demarcatória.

Gilmar olhou para as arquibancadas e, por um instante, viu o menino descalço que fora um dia, defendendo bolas improvisadas no campo de pelada do bairro, sob o olhar orgulhoso do pai. Aquela lembrança fortaleceu mais ainda o seu ânimo e lhe estimulou a conquista de mais um título para a cidade que tanto amava.

O apito do Juiz soou alto.

Um silêncio profundo tomou conta do Estádio. Viu-se torcedor roendo as unhas, outro rezando o terço, aquele tapando os olhos, e outros tantos com a lágrimas molhando a camisa. 

O voo impossível que virou milagre

O chute do goleador do Esparta, Nilton, camisa número 9, veio forte, o pé rasgou a grama da marca do pênalti pela potência do chute, que foi na direção do canto esquerdo de Gilmar, o qual, esticou o seu corpo de 1 metro e 93, com as mãos em direção à bola. E, como um raio, voava com o máximo de suas forças, usando a ponta dos dedos -conseguindo por um triz desviar a pelota para fora, salvando a sua equipe de um gol certeiro.

O estádio explodiu em lágrimas, não apenas em gritos. Companheiros correram até ele. A torcida, de pé, aplaudia como se quisesse deter o tempo e ver de novo aquela defesa acrobática.

Gilmar! Gilmar! Gilmar! Os radialistas quase que perdiam a voz se esgoelando, falando alto o nome de Gilmar, e exaltando o milagre de sua defesa, ao salvar o Ateniense da derrota e da perda do campeonato.

A cidade em festa e o herói eterno

A alegria tomou conta da cidade, um trio elétrico conduzia uma multidão enlouquecida para a praça de eventos, camisas pretas com listras amarelas foram costuradas de última hora deixando tudo colorido. A festa virou um carnaval, finalizando ao amanhecer do dia.

O futebol tem essa qualidade, une pessoas, traz alegria, e faz o povão esquecer de suas mágoas e decepções.

Mais que um goleiro: um legado

Ao pendurar as luvas, Gilmar compreendeu que não deixava apenas um gol protegido para trás, mas um legado: o de quem venceu a pobreza com dignidade, o esquecimento com coragem e o tempo com honra.

E assim, na memória da cidade, jamais foi chamado de ex-goleiro.

Passou a ser conhecido simplesmente como Gilmar, O Goleiro, um ídolo admirado e querido por seus patrícios.

Na entrada do Estádio da cidade, ainda hoje, lê-se um pórtico com uma Efígie, contendo a seguinte inscrição “Gilmar, o Goleiro, o melhor de todos. ASC”


Antonio Carlos Valadares – advogado.

O Último acorde de Sanfona

Conto

O Último Acorde de Sanfona

 I — Casa vazia, fole fechado

Ficara velho. E estava só. Não tinha mais mulher, que o deixara na viuvez, nem filhos por perto e nem qualquer pessoa que lhe fizesse companhia, a não ser o silêncio da casa. No bairro, todos o conheciam pelo apelido de Sanfona, por causa do instrumento que tocava com arte e fluidez, imitando acordes e a voz de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.  Quando tocava, fechava os olhos, como quem se muda para outro lugar sem sair do canto.

Os dois únicos filhos que tivera, Zeto e Francisco, haviam se perdido na bandidagem. Palavra pesada, mais dura que a própria viuvez.

Toda manhã era igual à outra. Ao acordar, ia à padaria, comprava o pão, trocava meia dúzia de palavras com o dono e voltava logo pra casa. Preparava o café, cortava o pão ao meio com a faca dentada, passava manteiga com cuidado nas duas bandas e comia devagar, ali na mesa com olhar fixo numa folhinha do Coração de Jesus, da Editora Vozes, encardida pelo tempo  que a sua amada havia pregado na parede da sala no seu último dia de vida.

Não tirara desde então nenhuma folha do bloco marcando os dias, como se quisesse parar no tempo e na data que ela desaparecera.

 II — Tempo de esperança

Zeto e Francisco tiveram uma criação direita, dessas que dão gosto de contar. Eram meninos educados, prestativos, sabiam se comportar dentro e fora de casa. Conselho nunca faltou.

Sanfona gostava de falar olhando nos olhos dos dois, voz mansa, palavra firme:— Lutem com honra pra vencer. A honestidade liberta; o roubo prende ou vai pra cova.

Pensando no futuro dos rapazes, matriculou-os numa escola profissionalizante ali mesmo no bairro. À noite, aprendiam mecânica; de dia, treinavam no velho Gordini 57, o único carro que Sanfona tivera na vida. Cada parafuso apertado era um sonho ajeitado no lugar.

Durante dois anos, foram motivo de orgulho. No íntimo da alma, Sanfona reconhecia com humildade: – Deus me presenteou com uma família abençoada.

 III — Quando a estrada entorta

No terceiro ano, a mudança veio devagar, mas veio. Chegadas tarde da noite, conversa atravessada, olhos estranhos.

Certa manhã, à mesa do café, Sanfona falou baixo, com jeito de quem pede: — Eu e sua mãe só dormimos depois que escutamos vocês entrando. Por que essa demora toda?

Zeto respondeu atravessado: — Oh, velho… não venha querer mandar na nossa vida. Não pense em atrapalhar o nosso sucesso. 

Aquela resposta foi como um corte seco. Sanfona não disse mais nada. Levantou-se e foi pro quarto. D. Zilda cuidou do café e fingiu não ouvir o que o coração já pressentia.

Pouco tempo depois, os filhos sumiram. Abandonaram a escola. Não deram notícia.

Vieram as drogas. Depois, o crime. O respeito foi a primeira coisa que ficou pelo caminho.

IV — O crime no lugar dos estudos

Com outros dois rapazes, Júlio e Tonto, os irmãos formaram uma quadrilha. Começaram pequenos, assaltando lojas de celular. Logo o apetite cresceu e o alvo mudou: assaltos a carros-fortes.

Vieram as armas pesadas, os explosivos, o planejamento feito com a maior precisão e cautela possíveis.

Nada de celular. Nada de rastro. Tudo pago em dinheiro vivo.

Zeto, mais velho e mais decidido, assumiu a liderança. Era frio, sabido, cuidadoso. Durante meses, os assaltos deram certo. Não houve morte. Apenas ferimentos leves. A consciência, estranhamente parecia pesar menos a cada golpe.

As abordagens a carros-fortes ocorriam após meticulosa escolha. Júlio fazia as vezes de observador, ficava numa encosta da rodovia que conduzia à cidade, tirava fotos, e filmava o veículo para gravar todos os seus detalhes para servir de análise nas reuniões de estratégias. Pegava o seu veículo, seguindo-o até o lugar da entrega do dinheiro. Anotava a hora. 

Depois de seis meses, o dinheiro enchia suas malas. Acharam ótimo o resultado obtido, deram-se por satisfeitos e resolveram não mais abusar da sorte. Então, separaram-se. Cada um tomou rumo diferente. Vida discreta, sem luxo, sem chamar atenção para escapar da Justiça. Será que as garras  da lei chegariam até eles? Será que os assaltantes irão colocar no sorvedouro das frases de efeito “o crime não compensa”?

 V — O erro que chama o fim

Por mais de um ano, viveram quietos, quase invisíveis. Até que Júlio cansou da cautela. Começou a gastar. Restaurante caro, boate, passeio de lancha. Comprou um carro de luxo, pago em dinheiro vivo. Um Opala novo, completo, ar condicionado, bancos de couro, vidros elétricos e direção hidráulica.

A cidade reparou. Cidade pequena repara em tudo.

Boato corre mais ligeiro que o vento.

E o destino, quando resolve bater, não erra porta.

A prisão de Júlio foi rápida. Apertado pelas provas, resolveu abrir a boca e colaborar com a polícia em troca de reduzir a pena, entregou nomes, datas e caminhos.

 VI — Cada uma paga sua conta

Tonto saiu em fuga, mas ao atravessar a fronteira num ônibus noturno para a Argentina, foi preso pela GNA (Gendarmeria Nacional Argentina), levando uma mochila com dinheiro, documentos falsos e um revólver. Não reagiu. Foi condenado por associação criminosa armada, roubos qualificados e porte ilegal de arma. A pena somou dezessete anos de reclusão, em regime fechado. No presídio, virou apenas um número — saiu do crime querendo desaparecer e conseguiu.

Francisco foi preso semanas depois, escondido numa casa simples, com dinheiro enterrado no quintal. Respondeu pelos mesmos crimes, mas sem papel de liderança. Recebeu doze anos de prisão, também em regime fechado. Nunca delatou ninguém. Nunca explicou nada.

Zeto não chegou a julgamento. Cercado numa rodovia do interior, tentou reagir à abordagem policial. Morreu na troca de tiros, arma na mão, sem tempo para arrependimento ou defesa. Foi enterrado como indigente, longe da terra onde nascera.

VII — O lamento que virou eternidade

Sanfona foi comprar o pão. Ao entrar na padaria viu um cliente portando o jornal que estampava uma manchete. Em letras bem graúdas Sanfona leu o que estava escrito “- Zeto, ladrão de carro-forte morre em tiroteio”. Nem levou o pão, saiu quase correndo pra casa. Ligou o rádio, o repórter com estardalhaço contava em detalhes o infortúnio dos quatro assaltantes. Desligou o aparelho.

Sentou-se na cadeira, puxou a sanfona e tentou tocar. Os dedos tremiam. O fole abriu e fechou sem som. Pela primeira vez, não conseguiu imitar Luiz Gonzaga.

Mas, naquela noite, resolveu tentar outra vez. Levou a sanfona pra calçada. Sentou-se no banco baixo, de frente pra rua deserta, fechou os olhos, e puxou, com o resto de força que ainda tinha, Assum Preto.

O fole gemia baixo, como se também conhecesse a dor. A melodia saía quebrada, triste, arrastada — não era mais música, era lamento.

Quem passou na rua diminuiu o passo. Quem ouviu o canto abriu a janela. Era como se todos entendessem o sofrer do bom homem, sem saber o porquê.

Quando o dia clareou, encontraram Sanfona sentado, quieto, o instrumento aberto no colo, os olhos fechados, como quem adormecera dentro da própria canção.

Diziam que, no instante exato da morte, um acorde ainda ecoou pela rua — triste, comprido, perfeito.

Como se a música tivesse resolvido partir junto com Sanfona.

O acorde fora emocionante, em tom de despedida, como a partir para a Eternidade.

Desde então, aquela rua nunca mais foi a mesma.

Antonio Carlos Valadares – advogado

 

Intervenções, ataques e invasões dos EUA

Nas fotos em destaque, sem obediência de períodos de governo, alguns dos presidentes que comandaram ações militares em outras Nações).

Linha do Tempo — Intervenções e Operações dos EUA (1945–2026)

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Anos 1940

  • 1947–1949 — Grécia (Guerra Civil): Apoio dos EUA por meio de ajuda militar e da CIA contra forças comunistas. Presidente: Harry Truman (Democrata).  

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Anos 1950

  • 1950–1953 — Guerra da Coreia: EUA lideram operação militar sob mandato da ONU contra a Coreia do Norte e aliados. Presidentes: Truman (Dem.) → Eisenhower (Republicano).  
  • 1953 — Irã (Operação Ajax): Golpe de Estado apoiado pela CIA para derrubar Mossadegh e reinstalar o xá. Presidente: Dwight D. Eisenhower (Republicano).  
  • 1954 — Guatemala: Golpe contra Jacobo Árbenz com direção da CIA. Presidente: Eisenhower (Republicano).  
  • Final dos anos 1950 — Operação 40 / Operação Mongoose (Cuba): Ações secretas da CIA contra o regime de Fidel Castro, incluindo preparativos de forças exiladas e planos clandestinos para desestabilização. Presidente: Eisenhower → John F. Kennedy (Democrata).  

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Anos 1960

  • 1961 — Baía dos Porcos (Cuba): Invasão fracassada por exilados cubanos apoiados pela CIA. Presidente: John F. Kennedy (Democrata).  
  • 1962–1975 — Laos: Apoio militar e operações covertas da CIA na chamada “Guerra Secreta” no Laos durante a Guerra do Vietnã. Presidentes: Kennedy → Johnson → Nixon.  
  • 1964 — Congo (Zaire): Apoio logístico e transporte de tropas durante rebeliões. Presidente: Lyndon B. Johnson (Democrata).  
  • 1965 — República Dominicana: Intervenção militar com envio de tropas (Operação Power Pack). Presidente: Lyndon B. Johnson (Democrata).  
  • 1964–1975 — Vietnã / Camboja: Guerra aberta e bombardeios U.S. como parte da Guerra do Vietnã. Presidentes: Johnson → Nixon.  

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Anos 1970

  • 1973 — Chile: Apoio da CIA ao golpe contra Salvador Allende. Presidente: Richard Nixon (Republicano).  
  • 1975–1990s — Angola: Apoio logístico e financeiro a facções durante a guerra civil. Presidentes: Ford (Republicano) → Carter (Democrata) → Reagan (Republicano).  
  • 1979–1989 — Afeganistão (Operação Ciclone): A CIA financia e arma mujahideen contra a invasão soviética. Presidentes: Carter (Democrata) → Reagan (Republicano).  

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Anos 1980

  • 1981–1990 — Nicarágua (Contras): Guerra por procuração contra o governo sandinista apoiado pela CIA. Presidente: Ronald Reagan (Republicano).  
  • 1983 — Granada: Invasão militar dos EUA para derrubar o governo. Presidente: Reagan (Republicano).  
  • 1986 — Líbia: Bombardeios aéreos contra alvos ligados ao regime de Gaddafi. Presidente: Reagan (Republicano).  
  • 1989 — Invasão do Panamá: Operação Just Cause, prisão de Manuel Noriega. Presidente: George H. W. Bush (Republicano).  

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Anos 1990

  • 1991 — Guerra do Golfo (Iraque): Operação militar internacional liderada pelos EUA após a invasão do Kuwait. Presidente: George H. W. Bush (Republicano).  
  • 1993–1994 — Somália: Intervenção militar humanitária com tropas americanas. Presidente: Bill Clinton (Democrata).  
  • 1994 — Haiti: Operação para restaurar governo constitucional. Presidente: Clinton (Democrata).  
  • 1999 — Kosovo (OTAN): Bombardeios liderados pelos EUA/OTAN contra Sérvia. Presidente: Clinton (Democrata).  

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Anos 2000

  • 2001–2021 — Afeganistão: Invasão após os ataques de 11 de setembro; longa ocupação com forças americanas. Presidentes: George W. Bush (Republicano) → Obama (Democrata) → Trump (Republicano) → Biden (Democrata).  
  • 2003–2011 — Iraque: Segunda Guerra do Golfo, derrubada de Saddam Hussein e ocupação. Presidente: George W. Bush (Republicano).  

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Anos 2010

  • 2011 — Líbia (OTAN): Bombardeios e apoio a rebeldes na guerra civil. Presidente: Barack Obama (Democrata).  
  • 2014–presente — Síria e Iraque: Operações contra o ISIS com forças especiais e bombardeios. Presidentes: Obama → Trump → Biden.  

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Anos 2020

  • 2025 — Operações no Caribe e Golfo contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas: Série de ataques militares e CIA envolvidos em operações encobertas. Presidente: Donald Trump (Republicano).  
  • **3 de janeiro de 2026 — Operação Absolute Resolve (Venezuela): Intervenção militar para capturar o presidente Nicolás Maduro, transportado aos EUA para julgamento. Presidente: Donald Trump (Republicano).  

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Observações importantes

  • Essa cronologia inclui intervenções militares diretas, guerras, operações e ações reconhecidas por pesquisa histórica e enciclopédica.  
  • A totalidade das intervenções é extensa (quase 400 registradas desde o fim da Segunda Guerra Mundial), mas esta linha do tempo destaca os eventos mais marcantes e frequentemente citados na história internacional.  
  • Em vários casos (como ações da CIA ou ataques com drones), o envolvimento direto dos EUA não envolveu declaração formal de guerra, mas teve impacto relevante nas políticas e governos dos países-alvo.  

 

 
 

Como escapei da morte certa

Crônica

Houve uma época em que, ao final da década de 70, o Brasil passava por uma grave crise econômica que fora desencadeada pela elevação dos preços do barril de petróleo. Para contornar essa dificuldade o governo criou o pro-álcool para dar apoio às usinas nacionais e estimular a produção de veículos movidos a álcool.

Cliente da Discar,  procurei um carro movido a gasolina, mas só tinha na concessionária fuscas a álcool. Mesmo reticente sobre a novidade, financiei o Volks junto ao Banco Itaú.

Deputado estadual, atento à minha base eleitoral principal, Simão Dias, depois de um final de semana na minha terra natal, que começava na sexta, no domingo retornava à noite para, na segunda, estar presente à primeira sessão da semana da Assembléia Legislativa. 

Um certo dia, em mais um domingo de volta para Aracaju, parti de Simão Dias à noite, depois das 21 horas. Até a cidade de Salgado a viagem transcorria sem sobressaltos com o rádio ligado na Globo-AM  para ouvir os comentários de Waldir Amaral  sobre os jogos da rodada do campeonato carioca. 

 O Fusca, porém, não era exatamente um primor de desempenho. Logo deduzi que estava fora de tempo, e que, por isso, precisava de uma regulagem adequada no carburador. Ou seria por causa do álcool combustível que a sua velocidade não passava de 100 km\h?. Agora não cabia mais essa discussão. A escolha e a compra já haviam sido feitas. Pé na tábua, da maneira que der!

Percorridos uns 20 quilômetros, antes de chegar ao término da rodovia Lourival Baptista, visualizei pelo retrovisor do carro algo estranho: um veículo que parecia me seguir em alta velocidade, quase colando no fundo do fusca e piscando o farol insistentemente, dando a entender que eu deveria parar imediatamente. 

Apertei o acelerador ao máximo, e quando pressenti que o carrão que me perseguia podia bater o seu pára-choque na traseira do Fusca, dei sinal e desviei para a direita, parando no acostamento, deixei o motor funcionando com a marcha no ponto morto e com o pé no freio.

Percebi que estava a cerca de um quilômetro da Br- 101, bem perto do viaduto que tem os letreiros da Rodovia Lourival Baptista. Num átomo de segundo pensei comigo: “pode ser a minha rota de fuga, se eu escapar daqui!”.  

Observei que era uma Chevrolet D-20. O motorista parou no acostamento distante uns 5 metros, à minha frente. Desligou as luzes e deixou o motor parado. Abriu a porta  e desceu.

Com as luzes do fusca acesas, pude notar que a D-20 tinha uma mulher na cabine.

No asfalto iluminado, percebi que o homem que vinha na minha direção jamais eu o havia visto. 

Foi então que o instinto de sobrevivência falou mais alto. Sem hesitar, engatei a marcha, acelerei com força e joguei o Fusca em direção ao desconhecido. Para não ser atropelado, ele se lançou para a esquerda da pista. Aquela manobra me deu a brecha necessária. Pressionei o acelerador como pude, o Fusca rodopiou no asfalto queimando pneu, bufava soltando cheiro de álcool que saia do tanque direto para meu nariz. Sai dali como um raio, contando os segundos para chegar em trecho seguro da rodovia federal.

Aquilo demorou pra mim uma eternidade, tal a pressa como eu queria safar-me daquela aflição.

Para minha tranquilidade, consegui chegar  na BR-101, passei na frente de um caminhão e direcionei o Fusca  bem na frente dele, agora me sentindo  bem protegido, com as mãos tremendo ao volante, mas com a certeza de que havia me livrado do perigo. 

Alguns quilômetros adiante, parei no primeiro posto da Polícia Rodoviária Federal. Relatei ao agente a perseguição que sofrera. O que ele me disse, em seguida, fez com que eu erguesse as mãos ao céu e agradecesse a Deus.

Embora aquele trecho entre Salgado e a BR-101 não fosse da jurisdição da PRF, e sim, da jurisdição do Estado, o agente mencionou ser muito perigoso trafegar por ali durante a noite. Naquela região, o boato corria solto sobre mortes estranhas e misteriosas com o desaparecimento de veículos e de motoristas. 

Meses depois, a imprensa noticiou que um casal de assaltantes fora morto em confronto com a polícia. Escondiam-se numa casa próxima ao fim da rodovia Lourival Baptista. 

O povo passou a comentar que nas escavações ao redor do imóvel, foram encontrados restos humanos. Mais de uma dezena de esqueletos. O lugar, segundo as falas do povão, era um cemitério sem nomes e sem cruzes. 

Ainda hoje me arrepio toda vez que passo por aquele trecho da estrada, a memória me leva de volta àquela noite sinistra e apavorante — quando, por um sopro de instinto e coragem, consegui escapar da morte certa.

Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador e senador

 

 

DO GANGAÇO DE ONTEM E DO BANDITISMO DE HOJE

PARTE 1- DO CANGAÇO DE ONTEM

Quem ouviu falar do Capitão Virgulino, o Lampião, um celerado que aterrorizava o Nordeste, sabe que naqueles tempos não era seguro morar no interior, especialmente em pequenas cidades, povoados ou fazendas.A proteção policial quase não existia. No quartel de polícia eram destacados poucos soldados, o delegado não contava com transporte, as armas nem se compararam com as usadas pelos cangaceiros. Os fuzis e os revólveres que os soldados recebiam, além de superados, quase sempre não dispunham de balas suficientes para o municiamento de suas armas. A soldadesca não tinha treinamento especializado para lidar com cangaceiros. Os policiais, ao ouvirem notícias de que Lampião estava chegando, raros os que ficavam na delegacia. Alguns saiam correndo, “vou ali, chego já”, e se embrenhavam na mata tremendo de medo e não mais voltavam.

A luta era desigual. Afinal, o primeiro alvo a ser neutralizado, quando a cabroeira entrava na povoação era a Delegacia, a qual, em nada podia ser comparada a uma “força armada”. O soldado que ali estivesse, podia ser humilhado ou baleado sem dó nem piedade. O maior prazer de Lampião era humilhar e matar “macaco”, apelido que atribuía a soldado da polícia militar por conta da perseguição tenaz que lhe movia a volante.

As armas usadas por Lampião e seu bando eram de excelente calibre e modernas para a época: fuzil mauser, pistola Luger P08 – o famoso parabellum (encontrada com Lampião em Angicos), a espingarda winchester, o revólver colt cavalinho , e a pistola FN (Browming 1910), uma arma curta usada pelas cangaceiras.

Os cangaceiros por onde andavam ameaçavam e extorquiam.

Mas, apesar dos perigos e incertezas, existia quem comprava fazendas na zona rural, atraído pelo preço convidativo, em face da fuga dos que tinham medo de viver por lá, e a possibilidade de criar gado com chances de ganhar dinheiro. O fazendeiro, para se proteger fechava os olhos ao histórico dos bandidos, e sempre que solicitado, mandava por algum coiteiro uma ajuda em dinheiro pra Lampião. Desse modo o rei do cangaço não o molestava. Era um vínculo oportunista. Interesse de mão dupla. O fazendeiro continuava a tocar suas atividades sem sofrer represálias e Lampião sabia que naquele recanto, caso estivesse fugindo da perseguição da volante, poderia homiziar-se abrigando a cabroeira por alguns dias, matando reses para alimentá-la e recebendo abrigo para dormir e descansar. Depois do descanso Lampião voltava a percorrer o sertão.

O tropel dos cavalos e os gritos apavorantes dos cangaceiros, tendo à frente Lampião, provocavam na gente simples do sertão medo e pavor, o mato ficava apinhado de homens, mulheres e crianças fugindo a pé, carregando trouxas e utensílios na cabeça ou na garupa de suas montarias. O jegue e o burro eram os animais preferidos pelo sertanejo.

O coitado do fazendeiro recebia uma mensagem aterradora em papel de cigarro, escrita mais ou menos assim: “Coroné vosmecê deve enviar 50 mi réis pelo portador no contraro vou aí pegar com meus cabra assina Capitão Virgulino Ferreira O Lampião”.

Dali, quando a volante apertava o cerco, os meliantes, se entrincheiravam em montes rochosos, preparavam uma cilada apontando as armas e atirando nos soldados. Durante o tiroteio, soltavam gritos como arma de intimidação, chamava-os de “macaco”, “tome, fio de uma égua!”, “fio do corno”, “lá vai bala no bucho caquento!”.

Depois de um ligeiro combate, como mestres em guerrilha corriam para o Razo da Catarina, área quase impenetrável da caatinga, as mais das vezes obrigando-os a cortar com seus facões na mata arbustiva densa, cactos, mandacarus ou xique-xique para abrir caminho na fuga desesperada. Para se protegerem dos espinhos vestiam roupas de couro.

Para curar feridas, tosses , incômodos intestinais, bronquite e trato urinário, usavam plantas da flora da caatinga com propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antimicrobianas como o mastruço, e óleos vegetais como o óleo de copaíba.

Nesse lugar inóspito, os cangaçeiros aproveitavam o intervalo de suas refregas e emboscadas contra a volante, e contra as populações indefesas para tratar das feridas, faziam festas, animadas pela sanfona, dançando o xaxado e empunhando os fuzis, bebendo cachaça, jurubeba ou cinzano até alta madrugada.

Quando tinham a sorte de matar um veado, depois de esquartejá-lo, colocavam-no no fogo entre duas forquilhas e comiam à vontade essa iguaria, enfiando o punhal, tirando um pedaço de carne e melando na farinha.

Sempre carregavam no bornal, onde estivessem, carne seca e rapadura para amenizar a fome. O mandacaru podia oferecer-lhes água para beber e matar a sede, como também para alimento na escassez de outros nutrientes.

Com o advento do Estado Novo, regime ditatorial chefiado por Getúlio Vargas, a perseguição ao cangaço – que ainda infestava a região Nordeste-, tornou-se uma questão de honra do governo.

No dia 28 de julho de 1938, Lampião e Maria Bonita, e vários de seus cangaçeiros que dormiam na Grota de Angicos (hoje Poço Redondo-SE), todos desprevenidos, recolhidos tranquilamente em suas barracas, foram emboscados pelo tenente João Bezerra e sua tropa.

Dos 35 cangaceiros, 24 deles conseguiram escapar, morrendo, no entanto 11, entre eles, Lampião e Maria Bonita, que foram fuzilados sem possibilidade de defesa. Lampião era a prioridade da matança. Foi por isso que a maior parte dos cangaceiros conseguiu safar-se da emboscada.

A traição partiu de um coiteiro conhecido por Pedro Cândido que levou a polícia até o esconderijo de Lampião, onde estivera várias vezes sem ser descoberto pela volante.

Os mortos foram degolados como prova, já que havia um prêmio no valor de 50 mil réis, pela apresentação da cabeça de qualquer integrante abatido do bando de Lampião.

Após a chacina, as cabeças foram inicialmente expostas para o público em Piranhas (AL), indo afinal para o Museu do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, até o ano de 1969. Com o ingresso de uma ação movida na Justiça por Expedita, única filha de Lampião e Maria Bonita , os crânios foram finalmente liberados para sepultamento no Cemitério Quinta dos Lázaros. 

Expedita, no entanto, teve o direito de receber os crânios de seus pais e os guardou por muitos anos. Em 2021, os crânios foram doados para o departamento de Patologia da FMUSP. Através de estudos e análises ali realizados os crânios de Lampião e Maria Bonita foram reconstituídos.

PARTE 2 – DO BANDITISMO DE HOJE

Como vimos, nos tempos de Lampião a população do interior vivia em intensa agitação e nervosismo, as famílias fugindo para a cidade grande na busca de segurança.

Hoje em dia, cidades grandes como S. Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte , Salvador, Recife, Fortaleza, só para citar essas, vivem situação de violência como nunca elas sentiram em outros tempos. A televisão estampa diariamente a repetição de atos que se comparam a uma batalha entre o Estado constituído e os marginais que parece não ter fim.

Tanto no interior como nas grandes e pequenas cidades, outra forma de banditismo aterroriza a população em escala infinitamente maior, com assaltos a mão armada, violência e crueldade, desafiando a ação dos poderes públicos.

Cada facção ou bando tem um chefe e os seus lucros proveem das mais variadas formas para lavagem de dinheiro: participação em lojas de shopping, padarias, postos de combustíveis, , roubo de cargas, assalto a bancos, contrabando de armas, ataques a ônibus, assassinatos sob encomenda, tráfico de drogas, milícias, desmonte de carros roubados, furto de celulares, e mais um sem número de atividades ilícitas.

O PCC e o Comando Vermelho, sustentam e comandam uma rede de crimes e corrupção muito superior à máfia italiana. Alguns de seus líderes, ainda que incomunicáveis em prisões de alta segurança atuam na cadeia direcionando para seus membros planos para o cometimento de crimes em ações espetaculares só vistas em filmes produzidos em Hollywood.

Apesar do aparelhamento caríssimo dos órgãos do Estado, que consomem bilhões do orçamento, a exemplo do Ministério Público, Defensoria Publica e Justiça, e da complexa estrutura da polícia, com armas e balas em profusão, investigação técnica da melhor qualidade, aviões, ônibus, vans para transporte emergencial da tropa, helicópteros de combate e várias formas de prevenção e luta contra a criminalidade, inclusive contando com a inteligência artificial – ainda assim, a violência não escolhe lugar para acontecer.

O Congresso Nacional, por sua vez, que aprisiona e freia o poder do Presidente da República e dita as leis, não consegue evitar ou sequer minimizar a criminalidade. Ao contrário, tenta impedir a abertura de processos criminais contra membros do Parlamento, e reverte em seu favor R$ 50 bilhões do orçamento federal em emendas, assegurando a reeleição de deputados e senadores.

Enquanto isso, conexões entre organizações criminosas se fortalecem, e mesmo que algumas delas sejam desbaratadas e seus líderes recebam altas punições, outras surgem como um câncer em metástase se espalhando pelo organismo da Nação.

A conquista civilizatória, com paz, tolerância e prosperidade está longe de acontecer entre nós, mas em alguma época haveremos de tê-la um dia.

Tenho fé em Deus!

Assina- ANTONIO CARLOS VALADARES, advogado

Trump quer dar ordens ao Brasil

É verdade que Trump, o imprevisível presidente dos EUA, quer levar o Brasil a nocaute. Começa, usando a lei magnistky, um mecanismo surgido em 2012 – nunca aplicado no sentido de ferir a soberania de um outro país, como fez com o Brasil – ao impor o tarifaço de 50% sobre a exportação de um número significativo de produtos do nosso país. Trata-se de um golpe baixo desferido por Trump para intimidar, ou melhor dizendo, para nocautear o Brasil.

Ficou claro que tudo não passa de uma vingança contra o Brasil e o seu povo. É um jogo de cartas marcadas na tentativa de salvar o seu amigo de uma causa perdida, o direitista Jair Bolsonaro, já inelegível por 8 anos, mesmo antes do julgamento da mais grave acusação que pesa contra ele, da qual a sua defesa até agora não encontrou uma justificativa plausível que possa livra-lo da cadeia em regime fechado, por ser, – como mostram as provas dos autos encaminhados pela polícia federal e Procuradoria-Geral da República ao STF, apontando-o como principal artífice da trama golpista para depor um governo legitimamente eleito.

O único benefício que Bolsonaro poderá receber é o da prisão domiciliar, caso uma perícia técnica, comprove que o seu estado de saúde não comporta uma prisão em regime fechado, a qual, como se sabe, é solitária, rigorosa e humilhante para um ex-presidente. O castigo de Trump contra a economia do Brasil, destituído de qualquer base legal, é típico de um governante que atua sem regras, contando com a leniência da Suprema Corte e do Congresso dos EUA, onde detém maioria.

Por conta disso, muitas empresas deixarão de funcionar no Brasil, milhares de empregos serão perdidos, além de uma redução drástica na arrecadação federal.

A nossa economia está vivendo um momento de imprevisibilidade.

Com os olhos voltados para os empregos, o governo esboça um plano de emergência para atenuar essa situação dramática, no qual estão previstas medidas para ajudar empresas, tais como, redução de impostos, concessão de empréstimos com taxas favorecidas e ajuda diplomática para descobrir outros mercados internacionais que possam comprar nossos produtos, sem as taxas abusivas impostas pelos americanos.

Para mascarar sua atitude discricionária Trump abriu investigação contra o Brasil por supostas práticas desleais de comércio – que serão conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), na sigla em inglês.

Como se trata de um organismo governamental dos EUA, já se pode prever por antecipação que o resultado dessa investigação virá contra o Brasil, como quer Donald Trump. Não há analista que conheça ao menos um pouco os meandros da política atual americana, que acredite no encerramento dessa questão com parecer favorável ao Brasil.

Querer condenar o Brasil, dentre outras coisas, porque o governo local não proíbe a população de usar o pix como instrumento para pagar despesas e receber pagamentos, é uma ideia insana e inegociável, que só pode prosperar numa mente doentia.

Numa luta de box quando um dos lutadores coloca o adversário nas cordas é sinal de que está vencendo, mas ainda não ganhou. Só depois de um soco poderoso, após deixar o adversário deitado na lona, e não mais se levantar em 10 segundos, é que acontece o nocaute. Aí, o juiz levanta os punhos do vitorioso dando a luta por encerrada.

O Brasil pode ficar nas cordas por um bom tempo, mas nunca será nocauteado, como sonha, trincando os dentes, o tresloucado e encrenqueiro Trump.

Temos um povo lutador, que não se entrega ao desânimo, apesar das dificuldades momentâneas, temos um território em toda a sua dimensão repleta de riquezas e produtos naturais incomensuráveis, temos um país disposto a lutar bravamente por sua soberania.

Custe o que custar, devemos nos manter corajosamente em posição de defesa, mas sem desprezar um bom acordo comercial para proteger nossas empresas, sem se ajoelhar perante os pés de Trump, reagindo com destemor aos seus golpes baixos até que ele raciocine que os EUA não podem viver sem a companhia do Brasil, a maior Nação da América Latina, com a qual, por mais de 200 anos tem relações comerciais mutuamente respeitosas e produtivas.

Mais cedo ou mais tarde, tenho confiança de que essas relações históricas terão de ser retomadas para o bem de ambos os povos. Com Trump ou sem Trump, essa perseguição contra o Brasil terá de chegar a um final construtivo e benéfico para todos, sem nocautes ou humilhações contra nenhum dos contendores ao travarem uma luta justa e leal para fortalecer a economia e o progresso das duas Nações.

Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador, ex-senador por Sergipe