O Pescador do Velho Chico
O Pescador do Velho Chico
Conto
Ali, num casebre bem perto do Rio São Francisco, num lugar paradisíaco, distante mais ou menos uma légua da cidade, vivia Pedro, o pescador, com sua mulher e seu único filho.
As redes e os anzóis pendurados no quintal mostravam a ocupação do trabalhador. Além das ferramentas indispensáveis, dispunha de um pequeno barco de madeira com motor de popa.
Os ensinamentos do velho pai
Aprendera com o pai, desde a adolescência, a pilotar pequenos barcos nas águas calmas ou encrespadas do rio. Ao chegar à idade adulta, já sabia também construir embarcações de madeira — outra arte que o velho lhe ensinara com paciência, na visão de que seu filho seguisse o seu riscado e se tornasse um bom profissional.
O barco construído pelas próprias mãos
Aquele barco, que era seu meio de vida, fora construído por suas próprias mãos, com muito cuidado, na intenção de usá-lo enquanto tivesse forças para trabalhar. Escolhera para a embarcação as dimensões de 5,0 m × 1,25 m × 0,45 m. Usara aroeira na quilha, madeira resistente que suportava o impacto contra bancos de areia; cedro nas laterais, mais leve e mais fácil de puxar para as margens; e jatobá na popa do motor, capaz de resistir ao repuxo e à vibração da rabeta.
O amanhecer no Velho Chico
O dia amanheceu. Olhou para o céu e previu, pelas nuvens esparsas, que a chuva passaria longe do seu trajeto, no que ainda restava de navegável no Velho Chico.
As marcas do desastre ecológico
O assoreamento do rio São Francisco transformara a paisagem ribeirinha, interrompendo a navegação em vários trechos. A invasão das águas e o avanço do mar deixaram submersas comunidades inteiras, tendo como marco histórico o povoado Cabeço, em Brejo Grande — fenômeno ocorrido após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó.
Todavia, como sinal indelével daquele desastre ecológico, ainda hoje permanece visível a ponta do farol, solitário e inclinado dentro d’água, como a denunciar que ali embaixo, nas profundezas do rio, por ação ou descuido do homem, encontram-se submersos os escombros de uma povoação inteira.
O retirante do Povoado Cabeço
Pedro foi um dos retirantes que tiveram o infortúnio de perder a moradia. Depois da destruição das casas, mudou-se para um lugar mais seguro e promissor às margens do rio, no povoado Ilha do Ouro, em Porto da Folha.
Os covos e a pesca do pitu
Pedro puxou o manípulo do motor, que logo ganhou vida. Acelerou e conduziu o barco em direção ao leito do rio. Mas, antes da pesca costumeira do curimatã pacu, do dourado ou do surubim, distribuiu os chamados covos — armadilhas para a captura do pitu. O covo manipulado por Pedro era uma peça cilíndrica, semelhante a um funil, com entradas que facilitavam a penetração do crustáceo, mas impediam sua saída.
Com a maestria de quem aprendera o ofício desde cedo, Pedro depositou no fundo do rio, próximo a pedras e raízes, várias dessas armadilhas, esperando recolher, ao fim do dia, boa quantidade de pitu — iguaria que compõe uma variedade de pratos capazes de atrair turistas de todos os cantos.
A experiência gastronômica de saborear um pirão de pitu com surubim, para quem já esteve na Ilha do Ouro, costuma despertar o desejo de retornar, não apenas pelos sabores e pratos apetitosos mas também pelas belezas naturais do Velho Chico.
Rumo às águas da pesca
Instaladas as armadilhas, tocou o barco mais adiante, seguindo uma rota onde esperava encontrar mais peixes. O dia estava esplêndido. O motor respondia ao leme, silencioso e sem falhas. A brisa fresca e suave batia no seu rosto dando-lhe uma quietude de espírito tal que que ali mesmo podia parar, dormir e sonhar. Mas pensou logo que as horas passam rápido como o vento – e tinha muito trabalho pela frente.
O céu mudou de cor sem avisar.
Pedro notou primeiro pelo silêncio — os pássaros calaram, o vento esfriou de um golpe, e o rio, que sempre lhe parecera um velho amigo, ganhou um tom escuro e inquieto. Antes que ele pudesse recolher as redes, o trovão rasgou o ar como uma faca, e a chuva caiu grossa, furiosa, como se o céu inteiro desabasse de uma vez só.
— Meu Deus, me ampara! — ele gritou, mas a voz sumiu engolida pelo rugido da tempestade.
As ondas vieram de todos os lados. O barco — seu velho e fiel companheiro de tantos amanheceres — balançou uma vez, duas, e na terceira não voltou mais. As redes se perderam nas águas negras, e Pedro foi junto, puxado para baixo por um redemunho que parecia ter fome.
Lá embaixo, no escuro e no frio, ele não entrou em pânico. Não agora, pensou. Não assim.
A correnteza, a dança das ondas e as pedras pontiagudas
Quarenta anos de rio corriam no sangue dele. Sabia como o rio respirava, onde ele torcia, onde ele engolia. Deixou o corpo afundar um segundo — só um — e depois deu uma braçada longa, forte, em diagonal, cortando a correnteza em vez de lutar contra ela. Seu pai lhe ensinara isso quando tinha seis anos: “Filho, água brava você não vence de frente. Você engana.”
Mas aquilo era outra coisa, um ronco da natureza
Ele ouviu antes de ver — aquele ronco profundo e sem piedade, de pedra e espuma, que todo pescador do rio conhece e carrega como um aviso dentro do peito. A correnteza o arrastava rápido demais, e as pedras surgiam como dentes negros entre a brancura furiosa da água revolta. Ele bateu o ombro numa delas com uma força que doeu até o osso — arrancou a pele do braço, viu o sangue se dissolver na água escura em fios finos, quase bonitos, e por um instante sentiu o rio vencendo.
A correnteza o rodou como se fosse um galho seco. Ele tentou se orientar e não conseguiu distinguir onde era cima, onde era baixo. Os pulmões ardiam. Uma pedra arranhou sua costela. Outra bateu no joelho com um estalo que ele sentiu mais do que ouviu. Em algum momento, a cabeça emergiu por um segundo — tempo suficiente para engolir ar e espuma — e logo voltou para dentro.
É aqui, pensou, com uma clareza estranha. É aqui que o rio me leva.
A Mão Invisível
Foi nesse pensamento que algo aconteceu.
Não foi um relâmpago de luz nem uma voz que desceu do céu — foi diferente, mais fundo e mais real do que qualquer coisa que ele poderia ter inventado. No meio de todo aquele caos de água e pedra e escuridão, uma calma que não era dele desceu pelo centro do peito, devagar e firme, como âncora. Não era resignação. Era outra coisa — era presença.
Seus braços, que já não obedeciam, obedeceram. Seus olhos, que mal enxergavam na espuma cega, encontraram — não sabe explicar como até hoje — uma fresta de água mais escura entre as pedras, à esquerda, um caminho que não deveria estar ali mas estava.
Vai, Pedro.
Não era voz. Era certeza.
Ele foi.
Três braçadas. Quatro. Os pulmões em brasa. As pedras roçando os joelhos. Uma onda o empurrou de lado e ele usou o empurrão, não brigou com ele, deixou o rio fazer metade do trabalho como se alguém soubesse da física melhor do que ele. E de repente — silêncio. Água mansa. Uma enseada pequena protegida por duas árvores tombadas, onde a correnteza não chegava.
Pedro agarrou um galho, puxou o corpo para a margem e caiu de bruços na lama fria.
Ficou assim por um tempo que não soube medir — podia ser um minuto, podia ser uma hora. Só respirando. Deixando o peito dolorido subir e descer, subir e descer, como se precisasse ter certeza de que ainda funcionava.
Quando levantou a cabeça, a chuva tinha fraquejado. Um fio de luz laranja rasgava o horizonte do outro lado do rio. As corredeiras ainda rugiam lá atrás, mas daqui pareciam distantes, quase irreais, como uma história que ele tivesse ouvido de outro.
Pedro se sentou na lama, olhou para as mãos abertas — cortadas, tremendo, vivas — e chorou. Não de medo, nem de dor. Chorou como chora quem acaba de compreender que foi sustentado por braços maiores do que os seus, no momento exato em que os seus já não bastavam.
— Obrigado — ele sussurrou, para o rio, para o céu, para o silêncio que ficou depois da tempestade. Quando se fala com Deus, qualquer direção serve.
O velho barco teimoso
Encolhido na margem, coberto de lama e folhas, dormindo aos solavancos com o frio grudado na roupa encharcada. Quando o sol nasceu de verdade — laranja primeiro, depois dourado — Pedro se levantou com dificuldade, o joelho inchado, o braço enfaixado num pedaço da própria camisa, e começou a caminhar pela beira do rio.
Não tinha esperança de achar muita coisa.
Achou o barco duas horas depois.
Estava encalhado numa curva do rio, abraçado a um banco de areia como se tivesse escolhido aquele lugar para descansar. A madeira estava um pouco rachada num lado — coisa que ele mesmo podia consertar —, as redes perdidas, um dos bancos arrancado. Mas estava lá. E o motor, velho e teimoso como o próprio Pedro, ainda estava pregado na popa, exatamente onde sempre esteve.
Pedro ficou parado na margem olhando por um longo tempo.
Então entrou na água até a cintura, colocou a mão na lateral do barco, e não disse nada. Não precisava. Havia entre homem e barco uma linguagem mais velha que as palavras — a linguagem de quem enfrentou a mesma tempestade e momentos de aflição.
Com esforço, com dor, com a teimosia que só os anos de rio ensinam, foi empurrando o barco de volta para as águas calmas.
O motor, pelos solavancos que tomara, deu-lhe um átomo de pessimismo- de que não iria pegar. Verificou as velas de ignição. Estavam encharcadas. Fez uma limpeza, a melhor que pôde. A bateria ainda estava no lugar, mas o conector do negativo quebrara. Por sorte, encontrou um pequeno alicate preso a uma das gavetas do banco. Emendou o conector, ligando as duas pontas da bateria. Saiu faísca. “Bom sinal! vou pra casa montado!”, disse ele. Puxou a corda para ligar o velho motor. Fez três tentativas, até que na quarta vez, motor tossiu, engasgou, e depois, obediente, ronronou como uma saudação ao pescador.
Pedro sorriu pela primeira vez desde a noite anterior.
Guiou o barco para casa devagar, pelo meio do rio, com o sol da manhã na cara. O rio estava quieto agora, largo e manso, como se a tempestade nunca tivesse existido. Mas existiu — Pedro tinha as marcas no corpo para provar.
E tinha algo mais: a memória daquela calma impossível no meio das águas turbulentas, daquela mão invisível que o empurrou quando ele não tinha mais para onde ir.
Isso ele não contaria para todo mundo. Mas também não esqueceria jamais.
O Lar
A canoa encostou no barranco de sempre com um barulho mole, familiar, o mesmo de todos os dias. Mas nada naquele dia era como todos os dias.
Pedro amarrou a corda no tronco com as mãos ainda tremendo. Ficou um instante sentado no barco, olhando para a subida até a casa — aquela ladeirinha de terra batida que havia subido milhares de vezes sem pensar — e de repente ela lhe pareceu a coisa mais bonita que já tinha visto na vida.
Começou a subir devagar, mancando do joelho, o braço enfaixado na camisa suja de lama e sangue seco. A cada passo, o coração batia mais forte, não de cansaço, mas de algo que não tinha nome certo — uma mistura de gratidão e saudade de quem quase não voltou.
Foi Juninho, o seu filho, quem viu primeiro.
Estava no terreiro brincando com um graveto quando ergueu os olhos e congelou. Piscou duas vezes, como se não acreditasse. Depois soltou o graveto e saiu correndo, gritando com toda a voz que tinha nos pulmões:
— Pai! Pai voltou! PAI!
Pedro mal teve tempo de abrir os braços.
O menino bateu no seu peito como um pássaro que não sabe freiar, agarrou a cintura do pai com os dois braços e não largou mais. Pedro sentiu o cheiro de criança no cabelo do filho — aquele cheiro simples, de sol e de casa — e fechou os olhos com força.
— Tô aqui, meu filho. Tô aqui.
A voz saiu rouca. Quase não saiu.
Mariana apareceu na porta um segundo depois. Estava com o avental ainda na mão, o cabelo preso de qualquer jeito, e os olhos — Pedro viu de longe — os olhos já estavam vermelhos de uma noite inteira de choro e de reza.
Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. E nenhum dos dois conseguiu falar nada por um momento que durou muito mais do que um momento.
Então Mariana desceu os degraus da varanda quase tropeçando, atravessou o terreiro sem se importar com os pés descalços na terra molhada, e quando chegou nele não abraçou — desabou. Enterrou o rosto no pescoço do marido e chorou de um jeito que Pedro nunca tinha visto — chorou com o corpo inteiro, com os ombros sacudindo, com aquele choro fundo que só sai quando o medo foi grande demais para caber dentro da gente.
— Eu achei que você tinha ido — ela disse entre soluços, a voz abafada contra o ombro dele. — Eu achei que dessa vez o rio tinha te levado. Fiquei a noite toda pedindo, Pedro. A noite toda.
— Eu sei — ele disse baixinho, apertando-a contra o peito com o braço bom, o queixo pousado na cabeça dela. — Eu sei, Mariana. Ele me ouviu. Ele me ouviu também.
Ficaram os três ali no meio do terreiro — pai, mãe e filho — abraçados sem pressa, sem vergonha, enquanto o sol da manhã batia de lado e o rio lá embaixo corria manso, como se não tivesse feito nada.
Juninho, ainda agarrado à cintura do pai, puxou a camisa com o dedinho e perguntou com aquela seriedade pequena e grave que só criança tem:
— Pai, você tava com medo?
Pedro olhou para o filho. Pensou nas pedras, na escuridão, no momento em que o rio quis levá-lo. Pensou naquela calma impossível que desceu no meio de tudo.
Abaixou-se devagar até ficar no nível dos olhos do menino, segurou o rosto pequeno nas duas mãos e disse a verdade:
— Tava sim, meu filho. Muito. Mas Deus não me deixou sozinho lá dentro não.
Pedro se levantou, olhou para a casa, para a varanda, para o rio lá embaixo brilhando no sol da manhã.
Respirou fundo.
Estava em casa.
E dessa vez, mais do que qualquer outra vez em quarenta anos de rio, soube o peso e a graça que existem no amado Velho Chico.
Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador e ex-senador

