conto

O Pescador do Velho Chico

O Pescador do Velho Chico

Conto

Ali, num casebre bem perto do Rio São Francisco, num lugar paradisíaco, distante mais ou menos uma légua da cidade, vivia Pedro, o pescador, com sua mulher e seu único filho.

As redes e os anzóis pendurados no quintal mostravam a ocupação do trabalhador. Além das ferramentas indispensáveis, dispunha de um pequeno barco de madeira com motor de popa.

Os ensinamentos do velho pai

Aprendera com o pai, desde a adolescência, a pilotar pequenos barcos nas águas calmas ou encrespadas do rio. Ao chegar à idade adulta, já sabia também construir embarcações de madeira — outra arte que o velho lhe ensinara com paciência, na visão de que seu filho seguisse o seu riscado e se tornasse um bom profissional.

O barco construído pelas próprias mãos

Aquele barco, que era seu meio de vida, fora construído por suas próprias mãos, com muito cuidado, na intenção de usá-lo enquanto tivesse forças para trabalhar. Escolhera para a embarcação as dimensões de 5,0 m × 1,25 m × 0,45 m. Usara aroeira na quilha, madeira resistente que suportava o impacto contra bancos de areia; cedro nas laterais, mais leve e mais fácil de puxar para as margens; e jatobá na popa do motor, capaz de resistir ao repuxo e à vibração da rabeta.

                                                                                                                                                  Construindo o barco

O amanhecer no Velho Chico

O dia amanheceu. Olhou para o céu e previu, pelas nuvens esparsas, que a chuva passaria longe do seu trajeto, no que ainda restava de navegável no Velho Chico.

As marcas do desastre ecológico

O assoreamento do rio São Francisco transformara a paisagem ribeirinha, interrompendo a navegação em vários trechos. A invasão das águas e o avanço do mar deixaram submersas comunidades inteiras, tendo como marco histórico o povoado Cabeço, em Brejo Grande — fenômeno ocorrido após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó.

Todavia, como sinal indelével daquele desastre ecológico, ainda hoje permanece visível a ponta do farol, solitário e inclinado dentro d’água, como a denunciar que ali embaixo, nas profundezas do rio, por ação ou descuido do homem, encontram-se submersos os escombros de uma povoação inteira.

A Ponta do Farol do Povoado Cabeço – foto Thiago Paulino

O retirante do Povoado Cabeço

Pedro foi um dos retirantes que tiveram o infortúnio de perder a moradia. Depois da destruição das casas, mudou-se para um lugar mais seguro e promissor às margens do rio, no povoado Ilha do Ouro, em Porto da Folha.

Os covos e a pesca do pitu

Pedro puxou o manípulo do motor, que logo ganhou vida. Acelerou e conduziu o barco em direção ao leito do rio. Mas, antes da pesca costumeira do curimatã pacu, do dourado ou do surubim, distribuiu os chamados covos — armadilhas para a captura do pitu. O covo manipulado por Pedro era uma peça cilíndrica, semelhante a um funil, com entradas que facilitavam a penetração do crustáceo, mas impediam sua saída.

Com a maestria de quem aprendera o ofício desde cedo, Pedro depositou no fundo do rio, próximo a pedras e raízes, várias dessas armadilhas, esperando recolher, ao fim do dia, boa quantidade de pitu — iguaria que compõe uma variedade de pratos capazes de atrair turistas de todos os cantos.

A experiência gastronômica de saborear um pirão de pitu com surubim, para quem já esteve na Ilha do Ouro, costuma despertar o desejo de retornar, não apenas pelos sabores e pratos apetitosos mas também pelas belezas naturais do Velho Chico.

Rumo às águas da pesca

Instaladas as armadilhas, tocou o barco mais adiante, seguindo uma rota onde esperava encontrar mais peixes. O dia estava esplêndido. O motor respondia ao leme, silencioso e sem falhas. A brisa fresca e suave batia no seu  rosto dando-lhe uma quietude de espírito tal que que ali mesmo podia parar, dormir e sonhar. Mas pensou logo que as horas passam rápido como o vento – e  tinha muito trabalho pela frente. 

O céu mudou de cor sem avisar.

Pedro notou primeiro pelo silêncio — os pássaros calaram, o vento esfriou de um golpe, e o rio, que sempre lhe parecera um velho amigo, ganhou um tom escuro e inquieto. Antes que ele pudesse recolher as redes, o trovão rasgou o ar como uma faca, e a chuva caiu grossa, furiosa, como se o céu inteiro desabasse de uma vez só.

— Meu Deus, me ampara! — ele gritou, mas a voz sumiu engolida pelo rugido da tempestade.

As ondas vieram de todos os lados. O barco — seu velho e fiel companheiro de tantos amanheceres — balançou uma vez, duas, e na terceira não voltou mais. As redes se perderam nas águas negras, e Pedro foi junto, puxado para baixo por um redemunho que parecia ter fome.

Lá embaixo, no escuro e no frio, com as águas turvas por causa dos redemoinhos de lama e detritos, ele não entrou em pânico. Não agora, não vou morrer assim – pensou. 

A correnteza, a dança das ondas e as pedras pontiagudas

Quarenta anos de rio corriam no sangue dele. Sabia como o rio respirava, onde ele torcia, onde ele engolia. Deixou o corpo afundar um segundo — só um — e depois deu uma braçada longa, forte, em diagonal, cortando a correnteza em vez de lutar contra ela. Seu pai lhe ensinara isso quando tinha seis anos: “Filho, água brava você não vence de frente. Você engana.”

Mas aquilo era outra coisa, um ronco da natureza

Ele ouviu antes de ver — aquele ronco profundo e sem piedade, de pedra e espuma, que todo pescador do rio conhece e carrega como um aviso dentro do peito. A correnteza o arrastava rápido demais, e as pedras surgiam como dentes negros entre a brancura furiosa da água revolta. Ele bateu o ombro numa delas com uma força que doeu até o osso — arrancou a pele do braço, viu o sangue se dissolver na água escura em fios finos, quase bonitos, e por um instante sentiu o rio vencendo.

A correnteza o rodou como se fosse um galho seco. Ele tentou se orientar e não conseguiu distinguir se estava no fundo ou se estava indo para a superfície,  os pulmões ardiam. Uma pedra arranhou sua costela. Outra bateu no joelho com um estalo que ele sentiu mais do que ouviu. Em algum momento, a cabeça emergiu por um segundo — tempo suficiente para engolir ar e espuma — e logo voltou para dentro.

É aqui, pensou, com uma clareza estranha. É aqui que o rio me leva.

A Mão Invisível

Foi nesse pensamento que algo aconteceu.

Não foi um relâmpago de luz nem uma voz que desceu do céu — foi diferente, mais fundo e mais real do que qualquer coisa que ele poderia ter inventado. No meio de todo aquele caos de água, espuma e pedra, uma calma que não era dele desceu pelo centro do peito, devagar e firme, como âncora. Não era resignação. Era outra coisa — era presença.

Seus braços, que já não obedeciam, obedeceram. Seus olhos, que mal enxergavam na espuma cega, encontraram — não sabe explicar como até hoje — uma fresta de água mais escura entre as pedras, à esquerda, um caminho que não deveria estar ali mas estava.

Vai, Pedro.

Não era voz. Era certeza.

Ele foi.

Três braçadas. Quatro. Os pulmões em brasa. As pedras roçando os joelhos. Uma onda o empurrou de lado e ele usou o empurrão, não brigou com ele, deixou o rio fazer metade do trabalho como se alguém soubesse da física melhor do que ele. E de repente — silêncio. Água mansa. Uma enseada pequena protegida por duas árvores tombadas, onde a correnteza não chegava.

Pedro agarrou um galho, puxou o corpo para a margem e caiu de bruços na lama fria.

Ficou assim por um tempo que não soube medir — podia ser um minuto, podia ser uma hora. Só respirando. Deixando o peito dolorido subir e descer, subir e descer, como se precisasse ter certeza de que ainda funcionava.

Quando levantou a cabeça, a chuva tinha fraquejado. Um fio de luz laranja rasgava o horizonte do outro lado do rio. As ondas ainda rugiam lá atrás, mas daqui pareciam distantes, quase irreais, como uma história que ele tivesse ouvido de outro.

Pedro se sentou na lama, olhou para as mãos abertas — cortadas, tremendo, vivas — e chorou. Não de medo, nem de dor. Chorou como chora quem acaba de compreender que foi sustentado por braços maiores do que os seus, no momento exato em que os seus já não bastavam.

— Obrigado — ele sussurrou, para o rio, para o céu, para o silêncio que ficou depois da tempestade. Quando se fala com Deus, qualquer direção serve.

O velho barco teimoso

Encolhido na margem, coberto de lama e folhas, dormindo aos solavancos com o frio grudado na roupa encharcada. Quando o sol nasceu de verdade — laranja primeiro, depois dourado — Pedro se levantou com dificuldade, o joelho inchado, o braço enfaixado num pedaço da própria camisa, e começou a caminhar pela beira do rio.

Não tinha esperança de achar muita coisa.

Achou o barco duas horas depois.

Estava encalhado numa curva do rio, abraçado a um banco de areia como se tivesse escolhido aquele lugar para descansar. A madeira estava um pouco rachada num lado — coisa que ele mesmo podia consertar —, as redes perdidas, um dos bancos arrancado. Mas estava lá. E o motor, velho e teimoso como o próprio Pedro, ainda estava pregado na popa, exatamente onde sempre esteve.

Pedro ficou parado na margem olhando por um longo tempo.

Então entrou na água até a cintura, colocou a mão na lateral do barco, e não disse nada. Não precisava. Havia entre homem e barco uma linguagem mais velha que as palavras — a linguagem de quem enfrentou a mesma tempestade e momentos de aflição.

Com esforço, com dor, com a teimosia que só os anos de rio ensinam, foi empurrando o barco de volta para as águas calmas.

O motor, pelos solavancos que tomara, deu-lhe um átomo de pessimismo- de que não iria pegar. Verificou as velas de ignição. Estavam encharcadas. Fez uma limpeza, a melhor que pôde. A bateria ainda estava no lugar, mas o conector do negativo quebrara. Por sorte, encontrou um pequeno alicate preso a uma das gavetas do banco. Emendou o conector, ligando as duas pontas da bateria. Saiu faísca. “Bom sinal! vou pra casa montado!”, disse ele. Puxou a corda para ligar o velho motor. Fez três tentativas, até que na quarta vez, motor tossiu, engasgou, e depois, obediente, ronronou como uma saudação ao pescador.

Pedro sorriu pela primeira vez desde a noite anterior.

Guiou o barco para casa devagar, pelo meio do rio, com o sol da manhã na cara. O rio estava quieto agora, largo e manso, como se a tempestade nunca tivesse existido. Mas existiu — Pedro tinha as marcas no corpo para provar.

E tinha algo mais: a memória daquela calma impossível no meio das águas turbulentas, daquela mão invisível que o empurrou quando ele não tinha mais para onde ir.

Isso ele não contaria para todo mundo. Mas também não esqueceria jamais.

O Lar

A canoa encostou no barranco de sempre com um barulho mole, familiar, o mesmo de todos os dias. Mas nada naquele dia era como todos os dias.

Pedro amarrou a corda no tronco com as mãos ainda tremendo. Ficou um instante sentado no barco, olhando para a subida até a casa — aquela ladeirinha de terra batida que havia subido milhares de vezes sem pensar — e de repente ela lhe pareceu a coisa mais bonita que já tinha visto na vida.

Começou a subir devagar, mancando do joelho, o braço enfaixado na camisa suja de lama e sangue seco. A cada passo, o coração batia mais forte, não de cansaço, mas de algo que não tinha nome certo — uma mistura de gratidão e saudade de quem quase não voltou.

Foi Juninho, o seu filho, quem viu primeiro.

Estava no terreiro brincando com um graveto quando ergueu os olhos e congelou. Piscou duas vezes, como se não acreditasse. Depois soltou o graveto e saiu correndo, gritando com toda a voz que tinha nos pulmões:

— Pai! Pai voltou! PAI!

Pedro mal teve tempo de abrir os braços.

O menino bateu no seu peito como um pássaro que não sabe freiar, agarrou a cintura do pai com os dois braços e não largou mais. Pedro sentiu o cheiro de criança no cabelo do filho — aquele cheiro simples, de sol e de casa — e fechou os olhos com força.

— Tô aqui, meu filho. Tô aqui.

A voz saiu rouca. Quase não saiu.

Mariana apareceu na porta um segundo depois. Estava com o avental ainda na mão, o cabelo preso de qualquer jeito, e os olhos — Pedro viu de longe — os olhos já estavam vermelhos de uma noite inteira de choro e de reza.

Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. E nenhum dos dois conseguiu falar nada por um momento que durou muito mais do que um momento.

Então Mariana desceu os degraus da varanda quase tropeçando, atravessou o terreiro sem se importar com os pés descalços na terra molhada, e quando chegou nele não abraçou — desabou. Enterrou o rosto no pescoço do marido e chorou de um jeito que Pedro nunca tinha visto — chorou com o corpo inteiro, com os ombros sacudindo, com aquele choro fundo que só sai quando o medo foi grande demais para caber dentro da gente.

— Eu achei que você tinha ido — ela disse entre soluços, a voz abafada contra o ombro dele. — Eu achei que dessa vez o rio tinha te levado. Fiquei a noite toda pedindo, Pedro. A noite toda.

— Eu sei — ele disse baixinho, apertando-a contra o peito com o braço bom, o queixo pousado na cabeça dela. — Eu sei, Mariana. Ele me ouviu. Ele me ouviu também.

Ficaram os três ali no meio do terreiro — pai, mãe e filho — abraçados sem pressa, sem vergonha, enquanto o sol da manhã batia de lado e o rio lá embaixo corria manso, como se não tivesse feito nada.

Juninho, ainda agarrado à cintura do pai, puxou a camisa com o dedinho e perguntou com aquela seriedade pequena e grave que só criança tem:

— Pai, você tava com medo?

Pedro olhou para o filho. Pensou nas pedras, na escuridão, no momento em que o rio quis levá-lo. Pensou naquela calma impossível que desceu no meio de tudo.

Abaixou-se devagar até ficar no nível dos olhos do menino, segurou o rosto pequeno nas duas mãos e disse a verdade:

— Tava sim, meu filho. Muito. Mas Deus não me deixou sozinho lá dentro não.

Pedro se levantou, olhou para a casa, para a varanda, para o rio lá embaixo brilhando no sol da manhã.

Respirou fundo.

Estava em casa.

E dessa vez, mais do que qualquer outra vez em quarenta anos de rio, soube o peso e a graça que existem no amado Velho Chico.

Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador e ex-senador

 

A Defesa Que Virou Lenda

Conto

O menino que aprendeu a voar nas peladas

Filho de uma família humilde – o pai, fora craque do time da cidade -, cresceu adorando o futebol. Nas peladas, Gilmar, destacava-se por sua perfomance como goleiro, pegando a bola com incrível facilidade por mais certeiros e violentos que fossem os chutes desferidos contra a meta que ele defendia.

O nascimento de uma muralha chamada Gilmar

Em face de suas qualidades inegáveis, foi convocado pela diretoria de futebol para ser o goleiro principal da seleção da cidade. O time (Ateniense Sport Clube – ASC), tinha um conjunto excelente, a bola preferivelmente no chão, de pé em pé, parecia uma combinação perfeita, com regra e compasso. Os adversários se rendiam ante a aplicação de seus jogadores.

O goleiro era a segurança, a barreira quase instransponível, a proteção e a garantia de que o gol dificilmente seria vazado.

O orgulho do Ateniense e da Cidade

A cidade tinha orgulho de sua equipe. A camisa fora desenhada com esmero, com listras amarelas e pretas, que fazia o gosto da torcida. O time foi premiado, subiu de categoria, e passou a fazer parte do campeonato nacional.

Vencendo todas as partidas que disputou, ganhou a taça de campeão, porém, quem mais contribuiu foi o goleiro, que fechou o gol, pegando bolas impossíveis com a rapidez de um gato. Gilmar, foi reconhecido por todos e pela imprensa esportiva como o melhor jogador em várias competições.

Quando o tempo começou a marcar contra

Os anos se passaram.

Mas o tempo, esse adversário invisível, começou a cobrar o preço das glórias. Os reflexos do goleiro já não eram os mesmos, os joelhos doíam nas manhãs frias e o silêncio do vestiário passou a dizer mais que os aplausos de outrora. Vieram as críticas, os cochichos nas arquibancadas, o banco de reservas.

A Despedida anunciada e seu último desafio

Foi de sua iniciativa o gesto de encostar as chuteiras. Na despedida de sua carreira monumental, o técnico fez questão de escalar Gilmar na partida decisiva do campeonato nacional.

Uma homenagem cercada de risco e preocupação por parte da torcida. Mas o técnico, um profissional experiente, muito confiante no seu trabalho, passou a semana inteira treinando Gilmar para o embate que definiria qual o melhor clube da competição naquele domingo à tarde.

O Ateniense, concentrado na Toca do Tigre, esperava o adversário que queria tomar-lhe a taça de campeão. Chamava-se Esparta Futebol Clube (EFC).

Para erguer a Taça de campeão o Ateniense bastava empatar com a equipe oponente.

O domingo em que o Estádio prendeu a respiração

Ao entrar em campo, Gilmar, o goleiro, teve banda de música em sua homenagem, houve pipocar de fogos de artifício, e várias faixas estampando o seu nome apareceram nas arquibancadas.

O estádio estava cheio como nos velhos tempos. Não por obrigação, mas por gratidão. A torcida sabia que aquele não era apenas um goleiro — era um símbolo.

Começou a partida. Jogo muito pegado, era visível o nervosismo de ambas as equipes, até que o camisa 7,  Bené,  da equipe adversária, ao centrar uma bola na pequena área, o goleador Nilton,  camisa 9, cabeceou com violência  e a bola entrou na gaveta.

A torcida não culpou o goleiro, o gol fora indefensável. 5 minutos após um gol de bicicleta do número 10 do Ateniense, Gerson, tirava a alegria da torcida adversária. 1 a 1 no placar.

O pênalti que decidiria o campeonato

Veio o segundo tempo, o empate persistia, e parecia dar ao Ateniense o título de campeão. Mas, como futebol é uma caixa de segredos, nos instantes finais, o juiz marcou um pênalti em favor do Esparta. O estádio inteiro prendeu a respiração.

Os locutores nas suas cabines de rádio gritavam que Juiz dera apenas 2 minutos de prorrogação. A placa levantada na lateral do gramado confirmava. Em resumo, previa-se que após a cobrança do pênalti o Juiz poderia dar a partida por encerrada.

Quer dizer: se a bola entrasse o campeão seria o Esparta.

Gilmar, caminhou lentamente até a linha do gol. Limpou o rosto do suor. O juiz orientou-o no sentido de não se afastar da demarcatória.

Gilmar olhou para as arquibancadas e, por um instante, viu o menino descalço que fora um dia, defendendo bolas improvisadas no campo de pelada do bairro, sob o olhar orgulhoso do pai. Aquela lembrança fortaleceu mais ainda o seu ânimo e lhe estimulou a conquista de mais um título para a cidade que tanto amava.

O apito do Juiz soou alto.

Um silêncio profundo tomou conta do Estádio. Viu-se torcedor roendo as unhas, outro rezando o terço, aquele tapando os olhos, e outros tantos com a lágrimas molhando a camisa. 

O voo impossível que virou milagre

O chute do goleador do Esparta, Nilton, camisa número 9, veio forte, o pé rasgou a grama da marca do pênalti pela potência do chute, que foi na direção do canto esquerdo de Gilmar, o qual, esticou o seu corpo de 1 metro e 93, com as mãos em direção à bola. E, como um raio, voava com o máximo de suas forças, usando a ponta dos dedos -conseguindo por um triz desviar a pelota para fora, salvando a sua equipe de um gol certeiro.

O estádio explodiu em lágrimas, não apenas em gritos. Companheiros correram até ele. A torcida, de pé, aplaudia como se quisesse deter o tempo e ver de novo aquela defesa acrobática.

Gilmar! Gilmar! Gilmar! Os radialistas quase que perdiam a voz se esgoelando, falando alto o nome de Gilmar, e exaltando o milagre de sua defesa, ao salvar o Ateniense da derrota e da perda do campeonato.

A cidade em festa e o herói eterno

A alegria tomou conta da cidade, um trio elétrico conduzia uma multidão enlouquecida para a praça de eventos, camisas pretas com listras amarelas foram costuradas de última hora deixando tudo colorido. A festa virou um carnaval, finalizando ao amanhecer do dia.

O futebol tem essa qualidade, une pessoas, traz alegria, e faz o povão esquecer de suas mágoas e decepções.

Mais que um goleiro: um legado

Ao pendurar as luvas, Gilmar compreendeu que não deixava apenas um gol protegido para trás, mas um legado: o de quem venceu a pobreza com dignidade, o esquecimento com coragem e o tempo com honra.

E assim, na memória da cidade, jamais foi chamado de ex-goleiro.

Passou a ser conhecido simplesmente como Gilmar, O Goleiro, um ídolo admirado e querido por seus patrícios.

Na entrada do Estádio da cidade, ainda hoje, lê-se um pórtico com uma Efígie, contendo a seguinte inscrição “Gilmar, o Goleiro, o melhor de todos. ASC”


Antonio Carlos Valadares – advogado.

O Último acorde de Sanfona

Conto

O Último Acorde de Sanfona

 I — Casa vazia, fole fechado

Ficara velho. E estava só. Não tinha mais mulher, que o deixara na viuvez, nem filhos por perto e nem qualquer pessoa que lhe fizesse companhia, a não ser o silêncio da casa. No bairro, todos o conheciam pelo apelido de Sanfona, por causa do instrumento que tocava com arte e fluidez, imitando acordes e a voz de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.  Quando tocava, fechava os olhos, como quem se muda para outro lugar sem sair do canto.

Os dois únicos filhos que tivera, Zeto e Francisco, haviam se perdido na bandidagem. Palavra pesada, mais dura que a própria viuvez.

Toda manhã era igual à outra. Ao acordar, ia à padaria, comprava o pão, trocava meia dúzia de palavras com o dono e voltava logo pra casa. Preparava o café, cortava o pão ao meio com a faca dentada, passava manteiga com cuidado nas duas bandas e comia devagar, ali na mesa com olhar fixo numa folhinha do Coração de Jesus, da Editora Vozes, encardida pelo tempo  que a sua amada havia pregado na parede da sala no seu último dia de vida.

Não tirara desde então nenhuma folha do bloco marcando os dias, como se quisesse parar no tempo e na data que ela desaparecera.

 II — Tempo de esperança

Zeto e Francisco tiveram uma criação direita, dessas que dão gosto de contar. Eram meninos educados, prestativos, sabiam se comportar dentro e fora de casa. Conselho nunca faltou.

Sanfona gostava de falar olhando nos olhos dos dois, voz mansa, palavra firme:— Lutem com honra pra vencer. A honestidade liberta; o roubo prende ou vai pra cova.

Pensando no futuro dos rapazes, matriculou-os numa escola profissionalizante ali mesmo no bairro. À noite, aprendiam mecânica; de dia, treinavam no velho Gordini 57, o único carro que Sanfona tivera na vida. Cada parafuso apertado era um sonho ajeitado no lugar.

Durante dois anos, foram motivo de orgulho. No íntimo da alma, Sanfona reconhecia com humildade: – Deus me presenteou com uma família abençoada.

 III — Quando a estrada entorta

No terceiro ano, a mudança veio devagar, mas veio. Chegadas tarde da noite, conversa atravessada, olhos estranhos.

Certa manhã, à mesa do café, Sanfona falou baixo, com jeito de quem pede: — Eu e sua mãe só dormimos depois que escutamos vocês entrando. Por que essa demora toda?

Zeto respondeu atravessado: — Oh, velho… não venha querer mandar na nossa vida. Não pense em atrapalhar o nosso sucesso. 

Aquela resposta foi como um corte seco. Sanfona não disse mais nada. Levantou-se e foi pro quarto. D. Zilda cuidou do café e fingiu não ouvir o que o coração já pressentia.

Pouco tempo depois, os filhos sumiram. Abandonaram a escola. Não deram notícia.

Vieram as drogas. Depois, o crime. O respeito foi a primeira coisa que ficou pelo caminho.

IV — O crime no lugar dos estudos

Com outros dois rapazes, Júlio e Tonto, os irmãos formaram uma quadrilha. Começaram pequenos, assaltando lojas de celular. Logo o apetite cresceu e o alvo mudou: assaltos a carros-fortes.

Vieram as armas pesadas, os explosivos, o planejamento feito com a maior precisão e cautela possíveis.

Nada de celular. Nada de rastro. Tudo pago em dinheiro vivo.

Zeto, mais velho e mais decidido, assumiu a liderança. Era frio, sabido, cuidadoso. Durante meses, os assaltos deram certo. Não houve morte. Apenas ferimentos leves. A consciência, estranhamente parecia pesar menos a cada golpe.

As abordagens a carros-fortes ocorriam após meticulosa escolha. Júlio fazia as vezes de observador, ficava numa encosta da rodovia que conduzia à cidade, tirava fotos, e filmava o veículo para gravar todos os seus detalhes para servir de análise nas reuniões de estratégias. Pegava o seu veículo, seguindo-o até o lugar da entrega do dinheiro. Anotava a hora. 

Depois de seis meses, o dinheiro enchia suas malas. Acharam ótimo o resultado obtido, deram-se por satisfeitos e resolveram não mais abusar da sorte. Então, separaram-se. Cada um tomou rumo diferente. Vida discreta, sem luxo, sem chamar atenção para escapar da Justiça. Será que as garras  da lei chegariam até eles? Será que os assaltantes irão colocar no sorvedouro das frases de efeito “o crime não compensa”?

 V — O erro que chama o fim

Por mais de um ano, viveram quietos, quase invisíveis. Até que Júlio cansou da cautela. Começou a gastar. Restaurante caro, boate, passeio de lancha. Comprou um carro de luxo, pago em dinheiro vivo. Um Opala novo, completo, ar condicionado, bancos de couro, vidros elétricos e direção hidráulica.

A cidade reparou. Cidade pequena repara em tudo.

Boato corre mais ligeiro que o vento.

E o destino, quando resolve bater, não erra porta.

A prisão de Júlio foi rápida. Apertado pelas provas, resolveu abrir a boca e colaborar com a polícia em troca de reduzir a pena, entregou nomes, datas e caminhos.

 VI — Cada uma paga sua conta

Tonto saiu em fuga, mas ao atravessar a fronteira num ônibus noturno para a Argentina, foi preso pela GNA (Gendarmeria Nacional Argentina), levando uma mochila com dinheiro, documentos falsos e um revólver. Não reagiu. Foi condenado por associação criminosa armada, roubos qualificados e porte ilegal de arma. A pena somou dezessete anos de reclusão, em regime fechado. No presídio, virou apenas um número — saiu do crime querendo desaparecer e conseguiu.

Francisco foi preso semanas depois, escondido numa casa simples, com dinheiro enterrado no quintal. Respondeu pelos mesmos crimes, mas sem papel de liderança. Recebeu doze anos de prisão, também em regime fechado. Nunca delatou ninguém. Nunca explicou nada.

Zeto não chegou a julgamento. Cercado numa rodovia do interior, tentou reagir à abordagem policial. Morreu na troca de tiros, arma na mão, sem tempo para arrependimento ou defesa. Foi enterrado como indigente, longe da terra onde nascera.

VII — O lamento que virou eternidade

Sanfona foi comprar o pão. Ao entrar na padaria viu um cliente portando o jornal que estampava uma manchete. Em letras bem graúdas Sanfona leu o que estava escrito “- Zeto, ladrão de carro-forte morre em tiroteio”. Nem levou o pão, saiu quase correndo pra casa. Ligou o rádio, o repórter com estardalhaço contava em detalhes o infortúnio dos quatro assaltantes. Desligou o aparelho.

Sentou-se na cadeira, puxou a sanfona e tentou tocar. Os dedos tremiam. O fole abriu e fechou sem som. Pela primeira vez, não conseguiu imitar Luiz Gonzaga.

Mas, naquela noite, resolveu tentar outra vez. Levou a sanfona pra calçada. Sentou-se no banco baixo, de frente pra rua deserta, fechou os olhos, e puxou, com o resto de força que ainda tinha, Assum Preto.

O fole gemia baixo, como se também conhecesse a dor. A melodia saía quebrada, triste, arrastada — não era mais música, era lamento.

Quem passou na rua diminuiu o passo. Quem ouviu o canto abriu a janela. Era como se todos entendessem o sofrer do bom homem, sem saber o porquê.

Quando o dia clareou, encontraram Sanfona sentado, quieto, o instrumento aberto no colo, os olhos fechados, como quem adormecera dentro da própria canção.

Diziam que, no instante exato da morte, um acorde ainda ecoou pela rua — triste, comprido, perfeito.

Como se a música tivesse resolvido partir junto com Sanfona.

O acorde fora emocionante, em tom de despedida, como a partir para a Eternidade.

Desde então, aquela rua nunca mais foi a mesma.

Antonio Carlos Valadares – advogado