A BALA DE PRATA E O AMOR À 1ª VISTA DE BOLSONARO

A AUDIÊNCIA E A INCERTEZA 

A ida do governador Belivaldo ao palácio do planalto para conversar com o presidente Bolsonaro é fato normal dentro do sistema federativo brasileiro. Faz parte do protocolo entre autoridades representativas da população. 

A audiência, no entanto, pareceu ter mais um objetivo político do que propriamente  administrativo. Longe de afirmar que os princípios republicanos  foram desrespeitados.  

O governador deve estar, através de pessoas ligadas ao governo federal,  afagando o ego do presidente, reconhecendo as suas dificuldades, dando a entender que está do seu  lado na luta pela reforma da previdência, que desceu do palanque, e que deseja iniciar uma parceria construtiva com o governo federal. Se realmente o governador estiver pensando desse desse jeito, ou parecido, não deixa de ser uma mudança da água pro vinho.

É fato que só um governador do Nordeste teve audiência com Bolsonaro, antes da reunião geral, e este governador foi Belivaldo. Vários ministros foram convocados para ouvir e receber os pleitos do governador. Nem por isso, estou especulando que ele esteja aderindo ao presidente Bolsonaro. Pelas circunstâncias em que o estado se encontra, pode se tratar apenas de um gesto de pragmatismo político. 

Então, foi uma reunião de um presidente que precisa de votos de deputados e senadores para aprovar a reforma de previdência,  com um governador que, às voltas com problemas financeiros em seu estado, como nos velhos tempos, ali estava de pires na mão,  pedindo recursos federais a fundo perdido para a execução de obras prioritárias que haviam sido expostas na sua campanha do ano passado, para ele mesmo resolver. 

O presidente não condicionou mas ficou implícito na reunião dos governadores realizada no dia seguinte, de que, ou eles se empenham para que o Congresso aprove a reforma da previdência, ou, caso seja rejeitada ou desidratada, não haverá recursos sobrando  para atender às demandas dos Estados e Municípios.

O governador fez alguns pedidos justamente numa fase de extrema dificuldade que, aliás, tem sido escancarada pelo próprio governo do presidente Bolsonaro.

Em resumo, nem o presidente ficou com a certeza de algum compromisso de apoio de nossa bancada federal, composta de oito deputados e três senadores, à reforma da previdência, nem o governador trouxe na sua pasta de despachos qualquer documento que lhe garanta a certeza de que os recurso solicitados serão liberados. 

Os governadores podem apoiar a reforma da previdência, todavia, quem vota são os deputados e senadores. Na bancada de Sergipe os votos estão ainda dispersos, sem um definição de como se comportarão na hora de apertar o dedo no painel  eletrônico. É preciso contabilizar ainda pra saber quem tem a maioria em questão tão polêmica. Tem-se apenas como certo que o PT não acompanhará a reforma de Bolsonaro nem que a vaca tussa.

AMOR À PRIMEIRA VISTA

A propósito, com a declaração do presidente, confirmada pelo governador de que no encontro entre os dois teria surgido um amor à primeira vista, Belivaldo deveria ter aproveitado clima tão favorável para, não só reivindicar benefícios diretos para Sergipe, como o fez, como também ter exercido o seu papel de liderança regional, propondo soluções definitivas em favor dos Estados que vivem em situação de  penúria financeira crônica há muitos anos. 

Falo de uma proposta de reforma tributária (que sempre defendi no Senado) que poderia ser encaminhada ao Congresso pelo presidente ainda este ano, após a tramitação da reforma da previdência. Depois desta, sendo aprovada ou não nos estritos termos em que foi apresentada pelo governo, finalizado o seu processo legislativo, seria aberto um novo período de debates dessa feita em torno da reforma tributária, uma questão crucial para o equilíbrio das finanças combalidas dos Estados e Municípios, resgatando-lhes, se for aprovada, a autonomia que deveriam ter perante a União, na realização plena das atribuições que lhes são conferidas pela nossa Carta Magna. 

O bolo da arrecadação dos tributos cobrados aos contribuintes brasileiros está em sua maior parte concentrado nas mãos do governo central, restando um percentual insignificante de 24% para os Estados, e de 14% para os Municípios. Essa desproporção na repartição dos recursos entre os entes federados é um dos principais fatores do desequilíbrio fiscal  e, por via de consequência, corrobora com o enfraquecimento do pacto federativo do Brasil. Aos Estados e Municípios  foram transferidas  ações e responsabilidades financeiras sem o correspondente aporte de recursos para cobrir as suas despesas.

Caso se efetive a reforma tributária, acabaríamos com essa dependência crônica em relação ao governo da União, a qual, hoje em dia,  pode ajudar ou não aos Estados, dependendo sobretudo da relação política com o planalto e do tipo de trocas de apoio que é feito na convivência com o governo, como por exemplo, o apoio político que é exigido aos governadores para apoiar a reforma da previdência.

A BALA DE PRATA

Aliás, o governo federal expõe a reforma da previdência como se o país não tivesse outras saídas para a cura de seus males, emoldurando tal reforma com o desespero de alguém que porta um revólver que só tem em sua defesa apenas uma bala, a bala de prata.

Voltando à reforma tributária: tem que ser implementada com urgência.  Só assim alcançaremos a autonomia dos Estados e Municípios, que ficarão livres da dependência humilhante do governo da União, que os obriga a viver de pires na mão atrás de recursos federais.

Com isso, vão sobrar, por exemplo, recursos no Estado de Sergipe para executar suas obras, incluindo aquelas que o governador pediu ao presidente, e completar o que falta para tapar o rombo da previdência, e nunca mais atrasar a folha dos servidores.

ACV

RETALHOS DA POLÍTICA – CROCODILOS & JACARÉS

NA ESCOLA DE QUÍMICA UMA REFERÊNCIA NO BRASIL

Passei no vestibular da Escola de Química Industrial, que funcionava em prédios localizados nas imediações do Estádio de Aracaju, hoje Batistão. Tratava-se de uma escola respeitada em todo o Brasil. O seu diploma era um passaporte para um bom emprego, principalmente na PETROBRAS. 

Em função do prestígio e da fama da Escola de Química, seus alunos eram comumente convocados por instituições públicas ou privadas para suprir as deficiências de seus quadros em disciplinas do campo de exatas como química, matemática e física. Foi desse modo que, no segundo ano de faculdade terminei sendo professor por um período de três  anos, antes de me formar, ministrando as disciplinas matemática e física no Atheneu, colégio onde estudei, e completei o meu curso científico.

Estudava e trabalhava para pagar a pensão de D. Helena, na rua de Pacatuba. Em frente a essa pensão morava uma bela garota com a qual mantinha uma paixão platônica. Era um apaixonado e essa garota nunca soube. A timidez impedia de me declarar. Ficava aguardando a sua saída para o Colégio, e só saia da janela quando a sua silhueta desaparecia da minha vista … 

Ingressei na militância da política estudantil. Fui eleito presidente do Diretório da Faculdade de Química. Montei um jornal que, dentre outras matérias, trazia novidades e artigos sobre a profissão do Químico Industrial. Passei uns tempos fazendo estágio profissional na Refinaria Landulpho Alves, na Bahia. 

VITÓRIA PARA PREFEITO

No último ano de faculdade, fui eleito Prefeito Municipal de Simão Dias, aos 22 anos de idade. Ficava entre Aracaju e Simão Dias,  com muito esforço terminando o curso da faculdade e administrando o município. Quando as aulas na faculdade estavam apertando, o meu vice-prefeito Dermeval Guerra quebrava um galho e me substituía na função de prefeito municipal com muito zelo e lealdade. No final do ano, ao receber o meu diploma de Químico Industrial, fui homenageado pelos meus colegas, que me entregaram a missão honrosa de ser o orador da turma, cuja colação de grau se deu no recinto do Teatro Atheneu, contando com a presença do governador Lourival Batista.                                                   

O TOSTÃO CONTRA O MILHÃO

Quando eu exercia o mandato de prefeito, governava Sergipe doutor Lourival Baptista, em cujo período não tivemos uma boa parceria administrativa, possivelmente por motivos de natureza política. Mas em outras etapas de nossas vidas políticas passamos a ter um ótimo relacionamento. Um figura sábia, esperta e dedicada da lista de grandes políticos de nosso estado. Apoiado pelo regime militar Lourival fez um governo realizador, e, em termos de rodovias foi um dos melhores governadores. Foi de sua iniciativa a construção da rodovia asfaltada entre a BR 101 e a cidade de Simão Dias. 

A eleição municipal que me conduziu à prefeitura de Simão Dias foi uma das mais disputadas entre aquelas que vivenciei em toda a minha carreira política. Lauro Nascimento, meu adversário,  contava com o apoio de todas as forças políticas e econômicas tradicionais do município, inclusive do governador do Estado, filho de Simão Dias, Sebastião Celso de Carvalho e do prefeito Nelson Pinto de Mendonça. Foi uma grande reviravolta na política local, um jovem com 22 anos de idade, conseguir vencer uma estrutura político-partidária fortíssima.

Enfrentei, com muita coragem e dedicação o desafio de lutar por uma mudança nos rumos da administração e da política do município sem saber, por antecipação, qual seria o resultado, e qual seria o meu destino, caso perdesse a eleição. Os analistas políticos do Estado diziam que não havia como o filho de Pedro Valadares ganhar aquela eleição.  Nos comícios eu sempre terminava os meus discursos em tom de luta heróica : “Por isso eu digo ao meu povo, essa é a batalha do tostão contra o milhão!).

Caso o nosso projeto político não lograsse êxito, possivelmente iria me dedicar às  minha profissão de químico na Petrobras, ou em alguma empresa privada no sul do país, deixando de existir como político.  Com 353 votos de frente derrubei o tradicionalismo, ou melhor dizendo, as oligarquias de Simão Dias. A figura de Pedro Valadares, meu pai (que havia falecido há dois anos atrás),  e a presença constante de D Caçula e Zé Valadares,  este já exercendo o mandato de deputado estadual, tiveram influência decisiva naquela virada histórica, uma jornada realmente emocionante (na foto, posse na Câmara de Vereadores).

ADMINISTRAÇÃO E POLÍTICA

Em 1967, quando iniciei o meu mandato de prefeito minhas prioridades: educação e saúde. Abri escolas nos povoados mais distantes; levei para servir ao município uma instituição federal de saúde muito requisitada na época, a Fundação SESP. Certa vez, olhei para a avenida  Coronel Loyola, na época porta de entrada da cidade – que tinha uma pavimentação ultrapassada, de pedras brutas, um grande desafio – e disse pra mim: “se eu puder, será a primeira obra, colocar ali paralelepípedos”. Fiz a obra. Pavimentei quase toda a cidade. Nenhum calçamento era feito sem esgoto. Construí o primeiro conjunto habitacional da cidade, de cem casas. Fiz escolas, estradas, pontes e postos de saúde. 

A política municipal só era quente no período da eleição. Nós éramos chamados de Crocodilos, enquanto que os nossos adversários, sob o comando do ex-Governador Celso Carvalho, eram os Jacarés. Duro no embate eleitoral, experiente, elegante, educado, o doutor Celso, se retirava quase por completo dos atritos do dia a dia logo após o resultado do pleito, quando o seu grupo perdia a eleição. Era luta entre dois grupos políticos que disputavam a preferência do eleitorado e , ao longo do tempo, se alternavam no comando da prefeitura. A paz existia de verdade, nem ameaças, nem perseguições, só se gastava língua e saliva, rolavam buxixos, é bem verdade, mas nunca houve violência para conter o crescimento do outro. Por essa razão é que Simão Dias era conhecida como a Suiça Sergipana.

O BARÃO DO MERCADOR

O avô de Celso Carvalho,  pelo lado materno, provinha de Sebastião de Andrade, o Barão de Santa Rosa,  e pelo lado paterno, tinha parentesco com Joviniano de Carvalho, que foi, na República,  várias vezes deputado federal no início do século XX. Por isso, para expor sua origem nobre eu o cutucava nos comícios chamando-o de Barão do Mercador (Mercador , nome da fazenda de Celso). Mas ele ficava irritado só um pouco com minhas provocações, respondia nos comícios, alteando a voz, que tinha orgulho de sua descendência, e discorria sobre a árvore genealógica de sua família de barões e baronesas…

Em muitas oportunidades, confesso que aprontei muitas armadilhas e criei sérias dificuldades em todas as eleições  para o Dr Celso, deixando-o preocupado e vigiando os meus passos. Ele despertava uma verdadeira paixão entre seus aliados pela persistência e interesse na política, despendendo recursos que, por certo, lhe causaram muitas despesas e prejuízos financeiros. 

Certa vez, por uma dessas distorções da política então vigente, chegamos a pertencer a um mesmo partido, a ARENA. A sublegenda se encarregava de fazer a separação política dos dois grupos. Foi aí que resolvi preparar-lhe um golpe político, um verdadeiro cheque-mate, que expôs com todas as letras a fragilidade e o artificialismo do sistema eleitoral que adotara a sublegenda. Já que ele estava na mesma agremiação política que a nossa – só pela conveniência de colocar-se debaixo do guarda-chuva do governo – e como, pela própria rivalidade local, era impossível o diálogo, cheguei à conclusão de que numa situação esdrúxula como aquela, quem fosse o mais forte, internamente, é que tinha que dar as cartas. E o nosso grupo dentro daquele quadro partidário confuso, era o mais forte para o azar de Celso.

Por seus projetos de conveniências políticas deixou-se encurralar pelo seu adversário que mantinha segura a chave do partido. Nenhum político espere pela benevolência de seu adversário quando este detém o poder de comando para decidir uma questão partidária. 

A SUPREMACIA DO DIREITO DA MAIORIA: CANDIDATO ÚNICO

Veja como tirei Celso de Carvalho de campo naquela partida. Vou contar como foi. Na eleição municipal de 1970, como o nosso grupo tinha maioria no diretório do partido, simplesmente obedeci à risca o que mandava a legislação: apresentei no Cartório Eleitoral a chapa completa do nosso grupo, onde constavam os nomes dos candidatos a Prefeito, a Vice e Vereadores. Celso só poderia ter a sua própria chapa se o nosso diretório a apresentasse. Ora, veja se isso poderia ser fácil! O radicalismo político entre os dois grupos na época era muito grande, afastava as pessoas, criava inimizade entre as famílias, traduzindo em miúdos, o óleo não se mistura com a água.

O próprio governador, Lourival Baptista entrou em ação, convocando-me para uma conversa no Palácio Olímpio Campos, fazendo toda pressão possível, insinuando até que os militares poderiam reconduzi-lo ao governo, permitindo a reeleição de mandatos de executivos. Foi em vão todo esse trabalho de convencimento: naquela eleição o grupo de Celso Carvalho ficou de fora. Não apresentou sequer um candidato a Vereador.

Recebi pressões de todos os lados para que eu registrasse também a chapa dos adversários. Eu entendia que se queriam disputar a eleição, tinham que fazê-lo se filiando a um partido de oposição (MDB), mas com a minha caneta jamais eu poderia contribuir para o trucidamento, para a divisão pública do nosso município, facilitando a vida do adversário que não queria largar o osso do governo, enquanto queria derrubar o nosso grupo …  Eu desejava dar um ponto final nessa verdadeira contrafação da política, de você ser obrigado a dormir com o inimigo, e ainda lhe dar a faca para ser ferido depois. 

Não imaginem como o nosso grupo comemorou a peça que pregamos nos adversários… (na foto, ex-governador Celso de Carvalho).

FOI UM PRÊMIO JUSTO A UM SERVIDOR DO POVO

Na eleição municipal de 1970 o povo de Simão Dias votou para Prefeito no candidato único José Neves da Costa, vereador de muitos mandatos. Tinha um verdadeiro computador em sua memória, sabia pelo nome e sobrenome, onde morava um eleitor, e a que família pertencia. Um homem simples, pobre e honrado. A sua indicação foi a coisa mais justa que poderia ter acontecido. Um justo prêmio a um amigo incondicional não apenas de nossa política, acima de tudo, um servidor do nosso povo. Simão Dias muita devia ao velho Zé Neves. Fez uma excelente administração, o seu mandato durou apenas dois anos, cumpriu com o povo além do que prometeu em campanha. Governou com simplicidade e correção. Contribuiu com a sua ação administrativa e política para a eleição do seu sucessor, José Matos Valadares.

Anos após, assim que cheguei ao governo do Estado, procurei afastar as antigas divergências com doutor Celso e o seu grupo político. Estendi o tapete da conciliação e consegui afastar as rivalidades e mágoas geradas na luta e na fricção política entre Crocodilos e Jacarés. No poder, entendia que tinha de ser magnânimo 

RETALHOS DA POLÍTICA – ESTUDO E PREPARO ANTES DA LUTA POLÍTICA

D JUDITE E PROFESSOR BENEDITO, DUAS ALMAS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO

MINHA PASSAGEM PELO JACKSON DE FIGUEIREDO

Estudei por quatro anos no Colégio Jackson de Figueiredo, localizado no Parque Teóphilo Dantas, que tinha como diretores os enérgicos e dedicados professores Benedito e D. Judite, onde tirei o curso ginasial como aluno interno, onde dividia o alojamento com cem jovens de Sergipe, e dos Estados de Alagoas e Bahia. Regime de vida quase militar. No estabelecimento existiam vários dormitórios, separados por idade, para abrigar os alunos internos. Meu pai fez um esforço enorme para me manter estudando durante quatro anos numa unidade escolar da rede privada, uma referência naquela época de organização e ensino rigoroso. 

Pela manhã D. Judite reunia no pátio do Colégio, antes da banca, todos os alunos, proferindo palestras cívicas, de exaltação à Pátria e enaltecimento da família. A uma hora da tarde, no mesmo pátio, nova palestra, hino nacional, eu ali, perfilado com os meus colegas de várias idades e séries, em silêncio, vestido numa farda de cáqui, camisa branca e gravata, sol a pino, suor correndo por todo o corpo. Em seguida, todos em fila, íamos para a sala de aula. 

O SUSPENSE DO PROFESSOR JUGUSTA 

Na primeira aula da tarde, eu me recordo minha da ansiedade e a de todos os colegas. Estávamos aguardando o professor Jugusta, de matemática. Silêncio total, porque agora ele vinha subindo a escada de madeira em direção à sala, e, desde lá debaixo, já gritava com a sua voz inconfundível para os alunos nervosos à espera da prova aterrorizante de álgebra: “1ª questão!!!…”, bradava com seu vozeirão, na porta, antes de entrar. O homem adorava ver os seus alunos apavorados. Mas quem tivesse calma, podia até se sair bem porque ele não passava na prova  nada além do que apresentava em sala de aula. 

Quando terminávamos as aulas íamos tomar banho, vestir o pijama, e enquanto aguardávamos a hora de nos recolhermos ao dormitório, ficávamos jogando snooker, dama ou conversando no pátio, falando de nossos pais, relembrando as festas em nossas cidades, e das moças bonitas que encantavam a nossa terrinha. Tudo era pureza e inocência ainda em nossa vidas de jovens sem sabermos o que o futuro nos aguardava. Mas, se levássemos a sério poderíamos seguir um caminho reto e sem atalhos, porque estávamos ali lapidando o nosso caráter, aprendendo a ler e a estudar, aperfeiçoando o que trouxemos de casa. Os valores da ética, do compromisso com a humanidade, a lealdade à Pátria, consideração, respeito e gratidão.

A MISSA E A FOLGA AOS DOMINGOS

Todos os domingos, quem fosse católico, e a imensa maioria professava o catolicismo, éramos obrigados a assistir à missa na Catedral, ali bem em frente ao Colégio. Em formação dupla, com a farda lavada e passada, fazíamos um pequeno percurso até a igreja, sem algazarras nem conversas. Os alunos de boa conduta, após a missa poderiam passear, almoçar fora em casas de parentes ou amigos, pegar a matinée do Cine Rio Branco, do Cine Palace, ou do Cine Aracaju, e ver as vitrines da rua João Pessoa. Os de má conduta ficavam retidos no alojamento com leitura pré-determinada pela direção. Outro atrativo, aos domingos, era saborear o melhor cachorro-quente da cidade, o de “Seu” João,   pegar um Big Bom da Yara, ou chupar um picolé da sorveteria Cinelândia de “seu”Araujo, que fazia um  delicioso sorvete que era vendido com gostos os mais variados. O sorvete que eu mais apreciava era o de mangaba. 

Por ocasião dos festejos natalinos, concentrados no Parque Teóphilo Dantas, tínhamos dificuldades de pegar no sono, por causa do apito do Carrossel de “Seu ” Tobias, e com a algazarra dos apostadores das inúmeras roletas, bancas de pio e baralho, instalados no fundo da Catedral. 

Nessa ocasião, me dava uma vontade danada de sair , para ver as gatinhas que ficavam desfilando da frente da Catedral até a Yara, indo e voltando,  até as nove horas da noite – momento em que a “onça era solta” e toda o mundo ia pra casa. 

A disciplina e os ensinamentos religiosos, éticos e morais, que eram ministrados por D. Judite e o Professor Benedito, foram o ponto alto do Colégio que fez história na educação em Sergipe. Alagoanos, os mestres receberam em vida grandes homenagens ainda em vida pelos assinalados serviços prestados à educação da juventude, inclusive da Assembléia Legislativa que lhes concedeu o título honorífico de cidadã e de cidadão sergipanos. 

ENSARILHANDO AS ARMAS 

O destino me proporcionou a oportunidade de não deixar que o Colégio Jackson de Figueiredo fosse fechado. O casal, já em idade avançada, cansado de guerra, queria ensarilhar as suas armas. 

Como Secretário da Educação, adquiri aquela unidade escolar, transferindo-a para a rede estadual. Eu a transformei em unidade de treinamento de professores, aproveitando toda a sua infraestrutura, quadra de esporte, refeitórios e salas de aula. Na parte voltada para a rua de Maruim, foi instalada uma Escola de primeiro grau.

NO VELHO E QUERIDO ATHENEU

 

COLÉGIO ESTADUAL ATHENEU SERGIPENSE

Não era muito fácil ser aluno do velho Atheneu. E eu tive a sorte de ter sido um de seus alunos.  Prédio imponente, dezenas de salas de aula, a cátedra sendo exercida por professores do mais alto gabarito,  famosos e competentes, os quais, eram vistos e respeitados como verdadeiras sumidades em conhecimento, cultura, autoridade moral e didática. 

No primeiro ano, peguei como professor de matemática, José Rollemberg Leite, ex-governador, cuja presença na sala de aula significava respeito e autoridade. Impunha-se, também pela forma objetiva e prática como ministrava suas aulas. Alguns anos lá na frente, eu me tornaria  ( em 1975), como deputado estadual, seu Líder na Assembléia Legislativa, e grande amigo, quando de sua última ascensão ao Governo do Estado. Fui por ele desafiado na primeira prova de geometria no espaço. Não tendo me saído bem nessa prova, em plena sala de aula, e na presença de todos os colegas, levei do professor José Leite um carão que me deixou seriamente encabulado. Prometi a mim mesmo que ele mais nunca me faria uma desfeita daquelas. Estudei com afinco, sem descanso, e daquele dia em diante só tirei nota 10 em matemática.

Quero registrar que, para que eu chegasse a esse nível de excelência em matemática – e, por isso, passei a receber elogios do professor Rollemberg – muito devo às aulas extras que recebi do meu amigo e colega Antonio Freitas, o qual, espontaneamente, ficava comigo nos intervalos passando exercícios e corrigindo as minhas falhas. 

A MAESTRIA E A PERSONALIDADE 

A professora Ofenísia ensinava português, encantando a todos com a sua didática simples e eficiente. A sua análise, traduzindo para o comum dos mortais as complexas estrofes dos versos de Camões, facilitando o entendimento, era uma peça didática de um primor sem igual, que deveria ter sido filmada para a posteridade. Se na época tivéssemos o celular aquelas aulas magníficas estariam por certo invadindo as redes sociais. 

A professora Glorita Portugal, lecionava francês, com classe e desenvoltura, chamando a atenção pela finura, pela sua beleza exponencial, e sua elegância no vestir. 

Ver Leão Magno Brasil, líder nato de seus alunos, professor de matemática do  3º ano científico, didática magistral, passo a passo no quadro negro, equações de trigonometria apresentadas com clareza,  que despertavam em todos o maior interesse e empenho por matéria tão atraente, era uma emoção a cada aula. Pra gente guardar e ter na memória a fórmula de trigonometria sen(a + b) = sena·cosb + senb·cosa) e nunca esquecê-la, ele recitava a 1ª estrofe da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, senoA, cossenoB, senoB, cossenoA …”. Gostava de escrever no quadro negro frases que nos ensinavam as regras do bom viver. Uma delas: “o futuro e o destino do homem no Universo são traçados por ele mesmo.”  Isto é, pelo próprio homem … 

Maria Augusta Lobão, ensinava história desenhando mapas no quadro negro dos povos da idade antiga. As suas aulas conduziam a nossa imaginação para a batalha do Desfiladeiro das Termópilas, para as bravuras de Dario, O Grande, discorria sobre a incrível travessia dos Alpes por Aníbal, general e estrategista cartaginês, com seu exército de elefantes desafiando Roma, a cultura filosófica dos Atenienses e a força guerreira dos Espartanos, as conquistas de Alexandre, O Grande, o lodo fértil produzido pelas enchentes do rio Nilo no Egito dos Faraós, o poderio de Roma e de seus Césares. Destacava o papel da mulher, chamando a atenção para o fascínio irresistível de Cleópatra que conseguiu dominar com os seus encantos os poderosos invasores romanos, os quais conquistaram o Egito, mas que, a exemplo de Marco Antonio, renderam-se à sua beleza escultural … 

Próximo capítulo Curso Superior e Arrancada Política

CORTES NAS UNIVERSIDADES: UMA DECISÃO INCONSEQUENTE

ENGODO: PROMESSA DE QUE NÃO HAVERÁ CORTES SE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA FOR APROVADA

O governo do presidente Bolsonaro comete mais um erro primário, característico de um grupo que assumiu o poder sem o mínimo preparo. A senha foi dada publicamente quando vimos aquela entrevista sem pé nem cabeça, sem conhecimento de causa,  do ministro da Casa Civl Onix Lorenzoni, comparando os gastos da Universidade Federal de Sergipe com uma universidade privada do mesmo estado, a Universidade Tiradentes, na qual alardeou  números  que não batem com a realidade. Tudo para justificar o corte de 30% no orçamento das instituições de ensino superior do Brasil.

O corte realizado, que tem um outro nome, contigenciamento, teve a defesa do ministro da Educação, Abraham Weintraub, em  comissão do Senado, onde afirmou que o governo está cumprindo apenas a lei, e que a decisão poderá ser revista caso a reforma da previdência seja aprovada. Mais uma desculpa esfarrapada de um membro do governo, achando que todos nós somos panacas e capazes de sermos enganados facilmente.

PRECONCEITO IDEOLÓGICO 

Ora, o contigenciamento pode ser feito para mais ou para menos, e no que diz respeito  à educação, o governo teria que remanejar dotações de outras itens do orçamento da União, e deixar intocáveis, ou num percentual de corte muito menor, as verbas destinadas às universidades públicas. O mais grave nessa decisão solapada do governo, é que muitas  delas, em três meses não terão como sobreviver com corte tão drástico.

Em verdade, o  governo, em gestos, palavras e atitudes, tem demonstrado que não tem simpatia  nem gosta das universidades públicas. Deixa transparecer, claramente, um certo preconceito ideológico, julgando, equivocadamente, que se tratam de centros de agitação de esquerda, de um conglomerado de cabeças extremistas que atrasam a formação científica e tecnológica do país. Pelo contrário, não fossem as universidades e os institutos públicos a situação do Brasil, em termos de pesquisa e avanço em todas as áreas de inovação tecnológica, seria muito pior.

MÁQUINA DE MOER UNIVERSIDADE 

Veja a incoerência e a dissimulação desse governo: enquanto bota para funcionar a sua máquina de moer as universidades, sinaliza com um projeto de implantação do ensino militar em todo o Brasil, como se tal iniciativa fosse resolver a precariedade da educação aqui reinante, no ensino fundamental e no 2º grau. Governo sem rumo e sem planejamento de ações concretas no setor educacional.

Outra desfaçatez é prometer que os recursos ficarão assegurados para as universidades caso seja aprovada a reforma da previdência. Isso não passa  de mais uma pressão psicológica do governo para obter a aprovação do projeto em tramitação na Câmara dos deputados, que tem andado a duras penas, com muitas reações contrárias de deputados à esquerda e à direita.

UM BRASIL SEM EMPREGOS E SEM UNIVERSIDADES 

A essa altura dos acontecimentos a previdência está sendo explorada como saída para todos os males de que sofre a nação. Foi assim, com argumento semelhante, que o governo Temer conseguiu encaçapar (com o meu meu voto contra)  a reforma trabalhista, apregoando que a sua aprovação acarretaria aumento de empregos com carteira assinada. O número alarmante de desempregados no Brasil, da ordem de 13 milhões, colocou uma pá de cal naquele argumento falacioso.

É a marcha da insensatez que está a caminho, e em passos largos,  nesse Brasil sem universidades e sem empregos.

O x da questão são os interesses privados que estão por detrás dessa ação articulada dentro e fora do governo para fragilizar as universidades federais.

Para saber mais https://is.gd/j7VWwU

ACV

 

VUCO VUCO – ONDE A PORCA TORCE O RABO

ESTÃO MEXENDO AS PEDRAS DO XADREZ DA SUCESSÃO (2020►2022)


 

 

➤ Vai ser preciso muito contorcionismo por parte da turma do governo aceitar uma candidatura do PT contra Edvaldo. Por outro lado, como ajeitar correntes do PT que se apegam aos cargos como visgo de jaca? Se for tomada mesmo uma diretriz da candidatura própria o partido vai exigir a entrega dos cargos. É aí onde a porca torce o rabo.

►Jair Bolsonaro não sabe o que faz com a briga provocada por filhos, amigos e auxiliares. Melhor chamar o feito à ordem e tocar o governo. Não bastam os 13 milhões de desempregados?

➤ Políticos da base do governo de Sergipe aguardam com uma certa impaciência as nomeações de CC’s que têm aparecido no DO à conta gotas. Dizem que no próximo mês a lista vai se agigantar. Mas há quem afirme que Belivaldo vai apertar os cintos e mostrar a eles o seu pescoço grosso para, enfim, conformarem-se  que o Estado não aguenta. O deputado Garibalde foi uma exceção, apareceu tinta na caneta do governador e o DO rodou pra atendê-lo. 

► A sucessão em Aracaju vai render muito assunto até chegar o Dia D dos partidos, quando então será  batido o martelo das composições políticas,  a partir de abril de 2020.

Ao que parece o prefeito Edvaldo, que pleiteia a reeleição – apesar da mãozinha que JB pretende oferecer-lhe -, não está conseguindo parar o projeto do PT que sonha ocupar o mesmo lugar que um dia fora de  Marcelo Déda (PT), uma liderança que, com carisma e  trabalho, conseguiu ser prefeito da capital por duas vezes consecutivas. Para completar sua brilhante carreira, interrompida com sua morte prematura,  Déda elegeu-se governador em 2006, ganhando a reeleição em 2010.

O problema é que Edvaldo ainda não conseguiu trazer pro seu lado as grandes multidões e se impor como líder dos Aracajuanos, como foram João Alves, o próprio Jackson e Déda. 

Rogério Carvalho vai seguir mesmo a orientação política  de JB? Embora o futuro esteja em aberto, até para nada de novo acontecer no front, no entanto, o senador Rogério parece disposto a facilitar a criação de um novo projeto do PT para Aracaju, com os olhos voltados para o governo do Estado, em 2022. Na Fan Fm o senador foi taxativo: o que JB falar não é importante para os rumos do PT. https://is.gd/kXFFrz

RETALHOS DA POLÍTICA – A PARTIDA DE DOIS JUIZES

 

Escola Estadual Fausto Cardoso

MEU CURSO PRIMÁRIO E A PARTIDA DE DOIS JUÍZES

Os meus primeiros anos de estudo foram realizados na cidade de Simão Dias. As últimas séries do ginásio foram concluídas no Colégio Jackson de Figueiredo, em Aracaju. No Atheneu cursei o científico. Antes de entrar na escola propriamente dita, fiz um curso de alfabetização em Simão Dias, com D. Carmosa, minha primeira professora. No quadro negro escrevia bonito. Muito enérgica, colocava em cima da mesa a temível palmatória e ái de quem não obedecesse às suas determinações. Recebia o devido castigo. 

Comecei o ginásio estudando no grupo Escolar Fausto Cardoso, localizado na praça da Matriz. Nessa unidade escolar do Estado tive como mestra D. Rita Cardoso. Competente, didática, muito bonita. Imprimia respeito aos seus alunos, apesar de muito jovem.

UM TIME BEM ENTROSADO: 2×0 no 1º tempo

A professora Rita, era noiva de Deó, que exercia, se não me engano, um cargo de funcionário federal, residente em Paripiranga, cidade do Estado da Bahia, cujo município é fronteiriço com o de Simão Dias. Hoje, com a rodovia asfaltada, a distância entre os dois municípios ficou muito encurtada. De Simão Dias, à noite a gente vê as luzes lá no alto de “Paris” , nome que muitos costumam chamar, no lugar de Paripiranga.  De carro não se demora mais de 15 minutos pra cobrir a distância entre as duas cidades.

Deó, certa vez causou o maior reboliço em Simão Dias ao retirar de campo a sua equipe de futebol, antes do apito final da partida. 

Durante anos e anos persistiu uma grande rixa entre Simão Dias e Paripiranga, em razão dessa partida de futebol disputada na minha cidade no campo empanado do bairro Bonfim, parecido com um circo sem cobertura. Eu estava lá pra torcer pelo meu time. O campo estava apinhado de torcedores fanáticos de ambos os lados.

Antes de começar o jogo, o time de Paripiranga fez um acordo no mínimo estranho com o de Simão Dias: no 1º tempo a equipe visitante indicaria um juiz, e no 2º tempo seria a vez do esquadrão de Simão Dias indicar um juiz de sua preferência que apitaria o embate até o seu término. Costume típico daquela época no futebol, traduzindo um gesto de camaradagem entre concorrentes de uma mesma partida.  

No primeiro tempo o time visitante deu um banho de futebol. Era de dar calafrios nos torcedores de Simão Dias a perfomance de seus lances, rápidos e certeiros, mostrando ser um conjunto realmente assustador. Bem entrosado,  o time deles conseguiu, de passe em passe, envolver a equipe simãodiense, culminando suas belas jogadas com um resultado de dois a zero no primeiro tempo.  Foi um alívio encerrar essa primeira fase porque o placar poderia até ter sido mais elástico. A nossa equipe era muito boa, mas parecia assustada diante da aparente superioridade do adversário. 

A REAÇÃO, A CAMINHO DO 1º GOL

Veio o segundo tempo e o juiz que entrou em campo, conforme combinado pelos dirigentes dos dois times, agora tinha que ser uma pessoa de Simão Dias, por indicação da seleção local. A escolha recaiu sobre a pessoa do Sr. Chico Bina, nome aprovado sem restrições pela equipe adversária. Afinal, tratava-se de um comerciante estabelecido na cidade e um dos homens mais bem conceituados, afinal, uma figura acima de qualquer suspeita.

Pela desenvoltura com que entrou em campo e ensaiou seus primeiros passos depois do apito inicial, parecia que o novo juiz – sagrado e sacramentado pelos duas equipes -, estava disposto a resolver a partida logo no início. Corria todo o gramado com uma velocidade e uma  ligeireza fora do comum, movimentando-se como se fora um atleta,  e com a intenção de um verdadeiro atacante.

Aos três minutos, bastou a bola passar por cima da grande área, onde a defesa de Paripiranga se encontrava postada,  depois de um drible seguido de um centro de Eliziário, ponta esquerda de Simão Dias, naquele empurra-empurra causado por esse tipo de lance, ouviu-se o som estridente do apito do juiz que, com o dedo indicador, apontava para a marca do pênalti. Deó, que era o capitão do clube de Paripiranga partiu pra cima de juiz, em tom enérgico, aos gritos pediu-lhe que anulasse o pênalti, que, segundo o reclamante não existira.

A torcida simãodiense foi ao delírio com a marcação da penalidade máxima, e de nada adiantaram os protestos dos jogadores da equipe baiana.  A redonda foi colocada na marca do pênalti por Nilo, sargento da polícia militar, exímio ponta direita, alto, magro das pernas compridas, bom jogador. Autorizado pelo juiz, deu um chutaço, sem apelação, e o goleiro nem viu por onde a bola passou. 2×1, por enquanto. 

A CAMINHO DO EMPATE

Novo ataque de Simão Dias, novo centro sobre a grande área adversária, e novo pênalti “providencial” foi marcado por Chico Bina: seria  o gol do empate, e um prenúncio de vitória para a seleção simãodiense. 

Bom, aí o time de Paripiranga sentiu-se garfado. Todos os jogadores reuniram-se no meio do campo, e sob o comando de Deó – que além de líder da equipe era também um de seus melhores atletas, – decidiram entre eles, o que, ninguém nem sabia, só um minuto após, todos viram o drama que estava se armando.  Paripiranga decidira, em sinal de protesto abandonar o jogo.

Justo quando  Nilo outra vez ajeitava a bola na marca do pênalti, e já se preparava para desferir o chute e marcar o gol de empate , aparece na pequena área Deó.  O capitão do time de Paripiranga , sem que ninguém esperasse, dirigiu-se à marca do pênalti, pegou a bola e, falou ao ouvido de Nilo “essa bola é do meu time, você usa a de vocês, com o gol vazio, porque eu vou embora daqui”. Botou a bola debaixo do braço e se evadiu do gramado, e, levantando o braço desocupado, deu sinal chamando os seus companheiros com os quais entrou no ônibus de volta a Paripiranga. 

A FRUSTRAÇÃO E A GOZAÇÃO 

Foi uma verdadeira ducha de água fria na torcida de Simão Dias que não comemorou a vitória porque a partida não tinha mais adversário e o gol de empate simplesmente não acontecera. Restara-lhe como único trunfo a saída intempestiva da equipe adversária que, pelo andar da carruagem, seria derrotada em campo, inapelavelmente. Por isso fugira com medo …

Os torcedores de Simão Dias ficaram irados, bradando horrores do time fugitivo. Ficou na alma do simãodiense a frustração de uma partida quase vencida, que só não acontecera por causa da covardia do adversário que desaparecera do gramado ao pressentir que iria perder… Em todos os botecos, bares e esquinas,  a frase que mais se ouvia por muito tempo, e que ainda cutuca a minha memória hoje em dia:  “Deó correu de campo! Deó correu de campo!”

Na sala de aula D. Rita não gostava de ouvir dos alunos aquela expressão. Todos foram proibidos de falar em futebol, mesmo nos intervalos… A gente apenas cochichava, fazendo troça do Deó, o noivo da professora… (Deó correu de campo! rsrsrsrs …).

Chico Bina se elegeu vereador de Simão Dias por várias legislaturas. 

RETALHOS DA POLÍTICA – MARIA BONITA DO CAIÇÁ

Na foto, governador Luiz Garcia

MARIA BONITA, APELIDO QUE D CAÇULA RECEBEU NA ALESE

Minha mãe, conhecida como D. Caçula, foi o braço direito de “Seu” Pedrinho. A casa vivia cheia de gente e era preciso muita paciência para tratar a todos sem desgostar a ninguém. Na nossa casa, primeiro na rua Joviniano Carvalho, e, depois, na rua Presidente Vargas (rua do Coité), vivia abarrotada de gente. 

Caçula entendia a sua missão, desempenhando o seu papel de companheira com maestria,com simplicidade, recebendo àqueles que queriam ver ou conversar com meu pai com atenção, e sempre com uma sugestão pronta e acabada ao seu marido, a fim de que todos dali saíssem satisfeitos. Temperamentos diferentes que se completavam. A mesa, sempre farta, com capão – vindo de seu próprio criatório -,  feijão, arroz e salada, era convidativa, e os presentes na hora do almoço, sentavam-se sem o menor sombrosso.  

D Caçula, além de tudo era uma cozinheira de mão cheia. Todos os fins de semana ela esperava os filhos e netos para a conversa domingueira, quando era servido o almoço, uma delícia, um maná  dos deuses, não faltando o famoso doce de leite, e, quando aparecia nos matos, à beira dos cercados,  a fruta silvestre  perruche, ela fazia um doce incrível – que tem um gosto aproximado de uma outra iguaria, que é o doce de mamão.

Na festa de Nossa Senhora Santana, padroeira da cidade, amigos e visitantes são por ela recebidos ocasião em que não esconde a satisfação de vê-los saboreando as suas apetitosas iguarias sertanejas. 

VEREADORES DA OPOSIÇÃO TENTAM INVADIR PREFEITURA PARA TOMAR O PODER

 

Decidida e corajosa. Positiva na hora de dizer a verdade. A gente só conhece mesmo D. Caçula quando se precisa de alguém pra resolver a parada. Eu conto: quando o meu pai era Prefeito de Simão Dias, os seus adversários, movidos pelo despeito, instalaram na Câmara de Vereadores um processo de impeachment relâmpago contra ele – sem a observância ao princípio do amplo direito de defesa -, tendo como objetivo derrubá-lo do cargo de prefeito. Como “Seu” Pedrinho não dispunha de maioria no legislativo municipal, o impeachment iria se consumar, caso o presidente da Câmara tomasse posse no comando do executivo do município. 

Os vereadores adversários estavam dispostos a dar posse ao “novo prefeito” a qualquer custo, que seria o presidente da Câmara.  Com esse intento, marcharam em direção à Prefeitura que ficava na Av. Cel. Loyola. Mas, a caminho, tiveram que recuar imediatamente, porque receberam um recado de D. Caçula de que resistiria até o último homem, e que ela jamais deixaria que ninguém invadisse a Prefeitura. 

A RESISTÊNCIA 

Os adversários souberam que um grupo bem postado no interior da Prefeitura havia sido organizado por D. Caçula, a maioria do Povoado Pau de Leite, e esse grupo estava disposto a dar sua própria vida em defesa do mandato legítimo de Pedro Valadares. Ao pressentirem a gravidade da situação, os Vereadores desistiram da posse,  e ficaram quietinhos e ansiosos em suas casas, aguardando o pronunciamento da Justiça que havia sido acionada por meu pai na cidade de Aracaju, onde ele se encontrava lutando para preservar o mandato que estava prestes a ser usurpado. 

A “providência acautelatória” de D. Caçula fora fundamental para a restauração da ordem institucional do município, de vez que o Tribunal de Justiça no dia seguinte ao da tentativa de invasão da Prefeitura concederia mandado de segurança a Pedro Valadares, sustando o ato da Câmara, assegurando-lhe  o pleno exercício do mandato de prefeito que lhe havia sido outorgado pelo povo em eleições livres. 

CRISE REPERCUTE NA ASSEMBLEIA 

A crise e o seu desfecho ecoaram na Assembleia Legislativa do Estado, com um discurso de protesto feito em termos escandalosos pelo Deputado Nivaldo Santos da cidade de Boquim, o qual, ocupando a tribuna, apelidou  “D. Caçula” de Maria Bonita do Caiçá (rio que banha Simão Dias), pois, denunciava ele, D. Caçula, armada até os dentes, à frente de uma verdadeira cabroeira vinda do Pau de Leite impedira a posse do novo prefeito “eleito’ pela Câmara. Enquanto isso, em sua defesa se levantou o Deputado José Onias que enalteceu o gesto daquela mulher corajosa que, agindo em defesa do mandato legítimo de seu marido, mesmo com o risco da própria vida, poderia ser comparada, segundo o parlamentar, Maria Quitéria, “à intrépida guerreira baiana, a primeira mulher-soldado do Brasil a defender com a sua bravura a integridade da Pátria …”. 

NÃO VOLTO MAIS NUNCA A ESTE LUGAR

Meu pai, homem de índole pacífica e conciliadora,  quebrou um rádio daqueles de válvulas, reduzindo-o a pedaços, depois de ouvir a notícia da derrota de Leandro ao Governo (desta feita para o pessedista de Itaporanga, Arnaldo Garcez, em 1950), tal era sua paixão pelo líder udenista. Eleição disputadíssima, Leandro perdeu a eleição para governador por apenas 134 votos.  Mas, em 1954, ganhou para Edelzio Vieira de Melo com uma diferença de 1.362 votos. 

Todavia, no episódio da supressão do mandato do meu pai tentado por nossos adversários, Leandro fraquejou: aconselhou-o a renunciar para estancar a crise.  

Quando meu pai saiu do sítio, residência do chefe udenista – que ficava em frente ao Hospital de Cirurgia — para onde se dirigira à procura do apoio do líder a quem idolatrava, e do qual jamais esperava uma negativa, voltou com a fisionomia completamente transtornada; entrou na Rural Willys, onde eu me encontrava esperando-o na direção do veículo, e me disse, procurando esconder as lágrimas que lhe rolavam pela face, que nunca mais voltaria àquele lugar.  

Foi uma grande decepção política que o meu pai sentiu. As consequências desse sentimento de abandono pela conduta de Leandro, que ele considerava um homem forte, foram desencadeadas logo a seguir, quando Pedro Valadares fez questão de assumir uma posição de vanguarda na política de Sergipe, ao apoiar para o governo do Estado o então deputado nacionalista que rompera com a UDN, João de Seixas Dória. 

A PRUDÊNCIA DE LUIZ GARCIA (UDN) 

No episódio da tomada do poder municipal pelos vereadores, apesar de solicitada a presença da polícia para dar cobertura àquele ato ilegítimo, ela não compareceu. Estava no comando do Estado o governador Luiz Garcia, o qual não deu guarida à execução de um plano de conspiração contra a democracia que fora tentado para derrubar o prefeito de Simão Dias, Pedro Valadares. A maioria dos simãodienses, e toda a família Valadares, vibramos com a atitude prudente do governador Luiz Garcia ao não coonestar com a política de perseguição movida pelos adversários de “Seu” Pedrinho.

Quando, no ano seguinte, foi candidato ao Senado, Luiz Garcia teve o voto e o apoio de Pedro Valadares e de todo o seu grupo, tendo sido o senador mais votado de Simão Dias, apesar de, injustamente, não ter logrado êxito em sua campanha. Júlio Leite, um político apagado do PR, tirou-lhe a vaga, eleito na onda da mudança. Seixas, então adversário de Luiz Garcia, entendeu o gesto do prefeito Pedro Valadares, em ter votado em Luiz Garcia para o Senado. 

O CANDIDATO DAS QUEIXAS

Pouco tempo depois Leandro foi candidato a governador pela última vez, e o meu pai marchou ao lado de Seixas Dória,  que rompera com Leandro e se tornara o candidato do PSD.  Seixas, naquela época, representou o candidato das mudanças.  O deputado federal Passos Porto (UDN), ao perguntar à minha mãe o motivo do rompimento do prefeito Pedro Valadares com Leandro, e porque estava votando com Seixas, ela respondeu sem pestanejar: “Pode dizer ao doutor Leandro que Seixas é o candidato das queixas…” 

Na minha eleição para a Prefeitura de Simão Dias os homens mais ricos e poderosos da cidade pressionaram minha mãe para retirar a minha candidatura e ela mais uma vez não negou fogo: “Se depender de mim, disse, “Tonho (como eu sou conhecido em Simão Dias) será o Prefeito, nem que seja lutando contra todos vocês” …Graças a gestos como esses é que pude iniciar a minha carreira política, e conseguir chegar aonde cheguei. 

Se alguém por acaso quisesse conhecer uma mulher  de coragem era só conversar com D. Caçula lá em Simão Dias, porque foi ela quem me ensinou com o seu exemplo de que nunca devemos recuar, nem desistir, nem temer o adversário, mesmo o mais forte ou o mais poderoso, sempre tentar, por mais difícil que seja a caminhada. 

ACV

ELBER DEFENDE A UFS E MOSTRA DESPREPARO DO MINISTRO ONIX

ELBER DEFENDE A UFS E MOSTRA DESPREPARO DO MINISTRO ONIX

 

Em pronunciamento na Câmara de Vereadores de Aracaju, o líder do PSB, vereador Elber Batalha, protesta contra Onix Lorenzoni que fez críticas injustas e infundadas à nossa Universidade Federal.

Elber acertou em cheio quando se propôs a assumir o papel de um autêntico parlamentar que não se deixa levar pelas ideias malucas de que quem chegou ao poder e não sabe se comportar, nem separar o joio do trigo.

Esse ministro, que faz parte de um governo sem rumo, se quisesse prestar algum serviço à educação superior de nosso país, já que ele não entende do assunto, faria melhor se ficasse calado  mas antes deveria pedir desculpas à Universidade Federal de Sergipe por sua frágil e inconcebível opinião depreciativa sobre uma instituição que construiu sua história com honra, dedicação e trabalho.

RETALHOS DA POLÍTICA – MORTE SOFRIDA

NO VAPOR 

Para ocupar toda a capacidade de produção do descaroçador, ele desenvolveu um amplo comércio para a compra do algodão em fibra na cidade de Simão Dias e em outros municípios do Estado. 

Após os meus 16 anos, quando eu voltava de Aracaju para passar as minhas férias em Simão Dias, ficava no Vapor (como era chamada a fábrica de beneficiamento), pesando e comprando algodão, e entregando as sementes para os agricultores, em sacos de 3 arrobas (45 quilos). A semente selecionada para o plantio era distribuída gratuitamente aos produtores de algodão. Havia uma parte que era vendida, aquela que era utilizada para alimento do gado que, adicionada com jaca ou mel da cana de açúcar, formava uma ração que continha nutrientes que engordavam os animais. 

No Vapor, cujo maquinário alemão mais parecia uma locomotiva (utilizava a lenha como combustível e a água do rio Caiçá para gerar o vapor), testemunhei atos de bravura do meu pai e do “Seu” Joaquim o velho maquinista dessa engenhoca que movia o descaroçador – na tentativa de reduzir a pressão da caldeira que, de vez em quando, desregulava e ameaçava explodir. Para me proteger de uma possível explosão, valente que só, eu me enroscava por entre os fardos de algodão prensado, ou, perna pra que te quero, dava no pé e lá só aparecia quando tudo estava sob controle… Mais tarde, aquela engenhoca pavorosa foi substituída por um moderno motor a diesel, o que afastou de uma vez por todas o pavor de uma explosão… 

Essa oportunidade de trabalhar no Vapor foi proveitosa porque passei a conhecer muita gente do campo, que mais tarde me ajudou na minha vida política. Hoje em dia, devido a fatores de ordem climática e econômica, monopólio comercial, importação de algodão subsidiado nos países de origem, principalmente do Canadá, adicionados à ocorrência da praga denominada “Bicudo”, acabaram por completo a produção de algodão de Simão Dias (no período a que me referi existiam ali, pelo menos três descaroçadores, beneficiando o algodão e gerando um grande comércio) e de todo o Estado de Sergipe. 

Mas meu pai, além de ter sido agricultor e comerciante, também se tornara um grande político.Começou a sua carreira como Vereador em Simão Dias, depois Prefeito, falecendo ao 53 anos de idade, como Deputado Estadual. 

CORAÇÃO FORTE 

Meu pai faleceu no Hospital Santa Isabel, em Aracaju, cujos médicos tudo fizeram para salvar sua vida tão preciosa para a nossa família e para o povo de Simão Dias. Mas a doença era grave (leucemia), a qual, a cada dia que passava, minava-lhe a resistência. 

Dores terríveis tomavam todo o seu corpo, tão fortes que para aliviá-las os médicos aplicavam morfina. Coração forte, foi o último órgão a deixar de funcionar.  Recordo-me que, naquela  hora difícil, observava com emoção o desvelo e os cuidados dispensados pelo casal Coronel João Machado e D. Meró, ao meu pai – amigos solidários na dor e na alegria.  

Também, a nossa família acompanhou com profundo agradecimento a assistência profissional, generosa e cristã do médico Francisco Rollemberg, cuja presença era permanente no Hospital até o último suspiro de meu pai. 

O LUTO E A EMOÇÃO DE UM POVO

Ao seu sepultamento na cidade de Simão Dias compareceram milhares de pessoas tristes e emocionadas. Eu vi homens e mulheres da minha cidade, chorando como crianças, como se tivessem perdido uma pessoa muito querida de sua família. “Seu” Pedrinho foi embora, o que vai ser de nós?” era o lamento que se ouvia nas ruas. Meu pai tinha uma grande identificação com o povo, vivenciava as suas dificuldades do dia a dia. Sentavam-se à sua mesa não só os políticos de Aracaju que vinham atrás de voto, mas as pessoas simples do meio rural e dos bairros pobres da cidade. 

Numa época em que não havia ambulância para o transporte de doentes, a sua Rural Willys estava sempre à disposição, de dia e de noite, para servir, sem perguntar se era eleitor ou não. Durante as secas que eclodiam no município não faltava água, nem trabalho, nem comida para os flagelados. Eu o acompanhei por muitas vezes como seu motorista em visita de supervisão em todo o município durante as secas ou em épocas normais.

“Seu” Pedrinho era um político respeitado e querido, o que é difícil nos dias de hoje. Seus adversários não o estimavam, mas sabiam o tamanho de sua popularidade, por isso que o temiam e planejavam às espreitas, ou abertamente, o seu afastamento do política simãodiense.   

Pude entender, pelo seu exemplo, que o verdadeiro objetivo do homem público é trabalhar contra a exclusão social, acabando com a injustiça da fome e da miséria. Não era um homem letrado, porém, com o seu comportamento de homem simples, honesto, bom e trabalhador, ensinou-me mais lições do que todos os livros que li até hoje.  

Graças a seu legado político, dois anos depois do seu desaparecimento fui eleito Prefeito de Simão Dias (em 1967), aos 22 anos de idade, numa disputa renhida, quando tive que enfrentar todas as forças políticas e econômicas do município e as derrotei com o voto do meu povo. 

No ano anterior (1966) José Valadares, aos 23, foi eleito Deputado Estadual. Quando meu pai morreu, senti de perto a dor pela perda de um amigo de verdade. Sempre pronto para servir e para fazer o bem, enfrentou tormentos gerados pela política que, impiedosamente, terminaram por desgastar a sua própria saúde e as suas finanças. 

RETALHOS DA POLÍTICA – MULUNGU

PEDRO VALADARES, O PLANTADOR DE ALGODÃO 

“SEU” PEDRINHO, COMO ERA CHAMADO

Todos conheciam o meu pai em Simão Dias como “Seu” Pedrinho. Antes de falar sobre a sua atividade política, que foi intensa e vitoriosa, vou recordar alguns episódios de sua vida como homem do campo e pequeno empresário.

Durante toda a sua vida dedicou-se de corpo e alma ao plantio do algodão, tornando-se o maior produtor regional da fibra.

Na época em que a agricultura tinha realmente o incentivo direto do governo federal, através do Fomento Agrícola, as terras da fazenda “Mulungu”, de propriedade do meu pai eram utilizadas em grande parte para o plantio do algodão.

No começo havia um pequeno criatório de gado leiteiro. Com o tempo misturou tudo, gado para abate, produção de leite, e roça de algodão. A fazenda, cortada pelo rio Jacaré em toda a sua extensão, ficava bem perto do povoado Pau de Leite e possuía uma área de aproximadamente 2.000 tarefas. 

Ainda muito jovem, eu torcia para chegar o inverno, pois era a época em que me reencontrava com aquilo que mais me deixava impressionado: os famosos tratores de esteira caterpillar do Fomento Agrícola, máquinas possantes e barulhentas que, em pleno inverno, vencendo atoleiros, rasgando a terra, preparava-a para o plantio.

Tabaréus da mata de Simão Dias, admiradores da destreza da nossa vaqueirama no trato de cavalos e bois, ficávamos boquiabertos com os tratoristas vindos da Capital, com a sua habilidade para manejar a máquina, a sua coragem para fazer a bicha subir em serras, atravessar atoleiros e desmanchar obstáculos.  

Depois de passar pelo processo de aração e gradagem a terra estava pronta para a semeadura, que era feita em covas ou escavações dispostas de forma retilínea, e em paralelo. 

A mão de obra local, constituída por homens e mulheres, fazia a equipe dos plantadores de algodão. Para se protegerem do sol, todos usavam na cabeça enormes chapéus de palha. Era gente alegre e comunicativa, que participava todos os anos das festas juninas organizadas por meu pai, degustando canjica, milho verde e pamonha feitos por minha mãe, D. Caçula, não faltando o forró, animado por uma estrepitosa e bem afinada sanfona. 

Durante a fase de crescimento da planta havia a limpeza do terreno que ficava infestado de mato. Nos corredores que se formavam entre as fileiras do herbáceo, vinham os cultivadores puxados a burro removendo a terra e desbastando o mato. A limpeza das raízes era tarefa executada por camponeses da localidade, os quais arrancavam as ervas daninhas que podiam prejudicar a plantação. Ainda havia o trato da roça com a aplicação de defensivos agrícolas.  

Meu pai, pela boa convivência que mantinha com os seus trabalhadores, era sempre convidado pela maioria deles para ser compadre. 

Guardo ainda hoje a imagem belíssima do algodoeiro, por ocasião da colheita: o verde das folhas mesclado com a alvura dos frutos que, amadurecidos, brotavam de suas cápsulas, naquela imensidão de fileiras de arbustos formando um quadro de beleza indescritível.  

O meu pai que tanto se esforçara, trabalhando de sol a sol, ao avistar aquele espetáculo que ele ajudara a construir, chegava a se emocionar, sem esquecer de agradecer a Deus pela safra que obtivera, opulenta e dadivosa. 

Plantar algodão naqueles tempos dava muito trabalho, e era uma cultura de risco, pois o retorno do investimento dependia muito das condições meteorológicas e das pragas. O algodoeiro exige chuva, mas não pode ser em excesso, caso contrário a produção sairá prejudicada. Quando as chuvas eram regulares, valia a pena, principalmente para meu pai que adquiriu na cidade uma fábrica de beneficiamento de algodão movida a vapor, que aproveitava a produção da fazenda “Mulungu”, agregando mais renda, e gerando emprego.