conto

A Defesa Que Virou Lenda

Conto

O menino que aprendeu a voar nas peladas

Filho de uma família humilde – o pai, fora craque do time da cidade -, cresceu adorando o futebol. Nas peladas, Gilmar, destacava-se por sua perfomance como goleiro, pegando a bola com incrível facilidade por mais certeiros e violentos que fossem os chutes desferidos contra a meta que ele defendia.

O nascimento de uma muralha chamada Gilmar

Em face de suas qualidades inegáveis, foi convocado pela diretoria de futebol para ser o goleiro principal da seleção da cidade. O time (Ateniense Sport Clube – ASC), tinha um conjunto excelente, a bola preferivelmente no chão, de pé em pé, parecia uma combinação perfeita, com regra e compasso. Os adversários se rendiam ante a aplicação de seus jogadores.

O goleiro era a segurança, a barreira quase instransponível, a proteção e a garantia de que o gol dificilmente seria vazado.

O orgulho do Ateniense e da Cidade

A cidade tinha orgulho de sua equipe. A camisa fora desenhada com esmero, com listras amarelas e pretas, que fazia o gosto da torcida. O time foi premiado, subiu de categoria, e passou a fazer parte do campeonato nacional.

Vencendo todas as partidas que disputou, ganhou a taça de campeão, porém, quem mais contribuiu foi o goleiro, que fechou o gol, pegando bolas impossíveis com a rapidez de um gato. Gilmar, foi reconhecido por todos e pela imprensa esportiva como o melhor jogador em várias competições.

Quando o tempo começou a marcar contra

Os anos se passaram.

Mas o tempo, esse adversário invisível, começou a cobrar o preço das glórias. Os reflexos do goleiro já não eram os mesmos, os joelhos doíam nas manhãs frias e o silêncio do vestiário passou a dizer mais que os aplausos de outrora. Vieram as críticas, os cochichos nas arquibancadas, o banco de reservas.

A Despedida anunciada e seu último desafio

Foi de sua iniciativa o gesto de encostar as chuteiras. Na despedida de sua carreira monumental, o técnico fez questão de escalar Gilmar na partida decisiva do campeonato nacional.

Uma homenagem cercada de risco e preocupação por parte da torcida. Mas o técnico, um profissional experiente, muito confiante no seu trabalho, passou a semana inteira treinando Gilmar para o embate que definiria qual o melhor clube da competição naquele domingo à tarde.

O Ateniense, concentrado na Toca do Tigre, esperava o adversário que queria tomar-lhe a taça de campeão. Chamava-se Esparta Futebol Clube (EFC).

Para erguer a Taça de campeão o Ateniense bastava empatar com a equipe oponente.

O domingo em que o Estádio prendeu a respiração

Ao entrar em campo, Gilmar, o goleiro, teve banda de música em sua homenagem, houve pipocar de fogos de artifício, e várias faixas estampando o seu nome apareceram nas arquibancadas.

O estádio estava cheio como nos velhos tempos. Não por obrigação, mas por gratidão. A torcida sabia que aquele não era apenas um goleiro — era um símbolo.

Começou a partida. Jogo muito pegado, era visível o nervosismo de ambas as equipes, até que o camisa 7,  Bené,  da equipe adversária, ao centrar uma bola na pequena área, o goleador Nilton,  camisa 9, cabeceou com violência  e a bola entrou na gaveta.

A torcida não culpou o goleiro, o gol fora indefensável. 5 minutos após um gol de bicicleta do número 10 do Ateniense, Gerson, tirava a alegria da torcida adversária. 1 a 1 no placar.

O pênalti que decidiria o campeonato

Veio o segundo tempo, o empate persistia, e parecia dar ao Ateniense o título de campeão. Mas, como futebol é uma caixa de segredos, nos instantes finais, o juiz marcou um pênalti em favor do Esparta. O estádio inteiro prendeu a respiração.

Os locutores nas suas cabines de rádio gritavam que Juiz dera apenas 2 minutos de prorrogação. A placa levantada na lateral do gramado confirmava. Em resumo, previa-se que após a cobrança do pênalti o Juiz poderia dar a partida por encerrada.

Quer dizer: se a bola entrasse o campeão seria o Esparta.

Gilmar, caminhou lentamente até a linha do gol. Limpou o rosto do suor. O juiz orientou-o no sentido de não se afastar da demarcatória.

Gilmar olhou para as arquibancadas e, por um instante, viu o menino descalço que fora um dia, defendendo bolas improvisadas no campo de pelada do bairro, sob o olhar orgulhoso do pai. Aquela lembrança fortaleceu mais ainda o seu ânimo e lhe estimulou a conquista de mais um título para a cidade que tanto amava.

O apito do Juiz soou alto.

Um silêncio profundo tomou conta do Estádio. Viu-se torcedor roendo as unhas, outro rezando o terço, aquele tapando os olhos, e outros tantos com a lágrimas molhando a camisa. 

O voo impossível que virou milagre

O chute do goleador do Esparta, Nilton, camisa número 9, veio forte, o pé rasgou a grama da marca do pênalti pela potência do chute, que foi na direção do canto esquerdo de Gilmar, o qual, esticou o seu corpo de 1 metro e 93, com as mãos em direção à bola. E, como um raio, voava com o máximo de suas forças, usando a ponta dos dedos -conseguindo por um triz desviar a pelota para fora, salvando a sua equipe de um gol certeiro.

O estádio explodiu em lágrimas, não apenas em gritos. Companheiros correram até ele. A torcida, de pé, aplaudia como se quisesse deter o tempo e ver de novo aquela defesa acrobática.

Gilmar! Gilmar! Gilmar! Os radialistas quase que perdiam a voz se esgoelando, falando alto o nome de Gilmar, e exaltando o milagre de sua defesa, ao salvar o Ateniense da derrota e da perda do campeonato.

A cidade em festa e o herói eterno

A alegria tomou conta da cidade, um trio elétrico conduzia uma multidão enlouquecida para a praça de eventos, camisas pretas com listras amarelas foram costuradas de última hora deixando tudo colorido. A festa virou um carnaval, finalizando ao amanhecer do dia.

O futebol tem essa qualidade, une pessoas, traz alegria, e faz o povão esquecer de suas mágoas e decepções.

Mais que um goleiro: um legado

Ao pendurar as luvas, Gilmar compreendeu que não deixava apenas um gol protegido para trás, mas um legado: o de quem venceu a pobreza com dignidade, o esquecimento com coragem e o tempo com honra.

E assim, na memória da cidade, jamais foi chamado de ex-goleiro.

Passou a ser conhecido simplesmente como Gilmar, O Goleiro, um ídolo admirado e querido por seus patrícios.

Na entrada do Estádio da cidade, ainda hoje, lê-se um pórtico com uma Efígie, contendo a seguinte inscrição “Gilmar, o Goleiro, o melhor de todos. ASC”


Antonio Carlos Valadares – advogado.

O Último acorde de Sanfona

Conto

O Último Acorde de Sanfona

 I — Casa vazia, fole fechado

Ficara velho. E estava só. Não tinha mais mulher, que o deixara na viuvez, nem filhos por perto e nem qualquer pessoa que lhe fizesse companhia, a não ser o silêncio da casa. No bairro, todos o conheciam pelo apelido de Sanfona, por causa do instrumento que tocava com arte e fluidez, imitando acordes e a voz de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.  Quando tocava, fechava os olhos, como quem se muda para outro lugar sem sair do canto.

Os dois únicos filhos que tivera, Zeto e Francisco, haviam se perdido na bandidagem. Palavra pesada, mais dura que a própria viuvez.

Toda manhã era igual à outra. Ao acordar, ia à padaria, comprava o pão, trocava meia dúzia de palavras com o dono e voltava logo pra casa. Preparava o café, cortava o pão ao meio com a faca dentada, passava manteiga com cuidado nas duas bandas e comia devagar, ali na mesa com olhar fixo numa folhinha do Coração de Jesus, da Editora Vozes, encardida pelo tempo  que a sua amada havia pregado na parede da sala no seu último dia de vida.

Não tirara desde então nenhuma folha do bloco marcando os dias, como se quisesse parar no tempo e na data que ela desaparecera.

 II — Tempo de esperança

Zeto e Francisco tiveram uma criação direita, dessas que dão gosto de contar. Eram meninos educados, prestativos, sabiam se comportar dentro e fora de casa. Conselho nunca faltou.

Sanfona gostava de falar olhando nos olhos dos dois, voz mansa, palavra firme:— Lutem com honra pra vencer. A honestidade liberta; o roubo prende ou vai pra cova.

Pensando no futuro dos rapazes, matriculou-os numa escola profissionalizante ali mesmo no bairro. À noite, aprendiam mecânica; de dia, treinavam no velho Gordini 57, o único carro que Sanfona tivera na vida. Cada parafuso apertado era um sonho ajeitado no lugar.

Durante dois anos, foram motivo de orgulho. No íntimo da alma, Sanfona reconhecia com humildade: – Deus me presenteou com uma família abençoada.

 III — Quando a estrada entorta

No terceiro ano, a mudança veio devagar, mas veio. Chegadas tarde da noite, conversa atravessada, olhos estranhos.

Certa manhã, à mesa do café, Sanfona falou baixo, com jeito de quem pede: — Eu e sua mãe só dormimos depois que escutamos vocês entrando. Por que essa demora toda?

Zeto respondeu atravessado: — Oh, velho… não venha querer mandar na nossa vida. Não pense em atrapalhar o nosso sucesso. 

Aquela resposta foi como um corte seco. Sanfona não disse mais nada. Levantou-se e foi pro quarto. D. Zilda cuidou do café e fingiu não ouvir o que o coração já pressentia.

Pouco tempo depois, os filhos sumiram. Abandonaram a escola. Não deram notícia.

Vieram as drogas. Depois, o crime. O respeito foi a primeira coisa que ficou pelo caminho.

IV — O crime no lugar dos estudos

Com outros dois rapazes, Júlio e Tonto, os irmãos formaram uma quadrilha. Começaram pequenos, assaltando lojas de celular. Logo o apetite cresceu e o alvo mudou: assaltos a carros-fortes.

Vieram as armas pesadas, os explosivos, o planejamento feito com a maior precisão e cautela possíveis.

Nada de celular. Nada de rastro. Tudo pago em dinheiro vivo.

Zeto, mais velho e mais decidido, assumiu a liderança. Era frio, sabido, cuidadoso. Durante meses, os assaltos deram certo. Não houve morte. Apenas ferimentos leves. A consciência, estranhamente parecia pesar menos a cada golpe.

As abordagens a carros-fortes ocorriam após meticulosa escolha. Júlio fazia as vezes de observador, ficava numa encosta da rodovia que conduzia à cidade, tirava fotos, e filmava o veículo para gravar todos os seus detalhes para servir de análise nas reuniões de estratégias. Pegava o seu veículo, seguindo-o até o lugar da entrega do dinheiro. Anotava a hora. 

Depois de seis meses, o dinheiro enchia suas malas. Acharam ótimo o resultado obtido, deram-se por satisfeitos e resolveram não mais abusar da sorte. Então, separaram-se. Cada um tomou rumo diferente. Vida discreta, sem luxo, sem chamar atenção para escapar da Justiça. Será que as garras  da lei chegariam até eles? Será que os assaltantes irão colocar no sorvedouro das frases de efeito “o crime não compensa”?

 V — O erro que chama o fim

Por mais de um ano, viveram quietos, quase invisíveis. Até que Júlio cansou da cautela. Começou a gastar. Restaurante caro, boate, passeio de lancha. Comprou um carro de luxo, pago em dinheiro vivo. Um Opala novo, completo, ar condicionado, bancos de couro, vidros elétricos e direção hidráulica.

A cidade reparou. Cidade pequena repara em tudo.

Boato corre mais ligeiro que o vento.

E o destino, quando resolve bater, não erra porta.

A prisão de Júlio foi rápida. Apertado pelas provas, resolveu abrir a boca e colaborar com a polícia em troca de reduzir a pena, entregou nomes, datas e caminhos.

 VI — Cada uma paga sua conta

Tonto saiu em fuga, mas ao atravessar a fronteira num ônibus noturno para a Argentina, foi preso pela GNA (Gendarmeria Nacional Argentina), levando uma mochila com dinheiro, documentos falsos e um revólver. Não reagiu. Foi condenado por associação criminosa armada, roubos qualificados e porte ilegal de arma. A pena somou dezessete anos de reclusão, em regime fechado. No presídio, virou apenas um número — saiu do crime querendo desaparecer e conseguiu.

Francisco foi preso semanas depois, escondido numa casa simples, com dinheiro enterrado no quintal. Respondeu pelos mesmos crimes, mas sem papel de liderança. Recebeu doze anos de prisão, também em regime fechado. Nunca delatou ninguém. Nunca explicou nada.

Zeto não chegou a julgamento. Cercado numa rodovia do interior, tentou reagir à abordagem policial. Morreu na troca de tiros, arma na mão, sem tempo para arrependimento ou defesa. Foi enterrado como indigente, longe da terra onde nascera.

VII — O lamento que virou eternidade

Sanfona foi comprar o pão. Ao entrar na padaria viu um cliente portando o jornal que estampava uma manchete. Em letras bem graúdas Sanfona leu o que estava escrito “- Zeto, ladrão de carro-forte morre em tiroteio”. Nem levou o pão, saiu quase correndo pra casa. Ligou o rádio, o repórter com estardalhaço contava em detalhes o infortúnio dos quatro assaltantes. Desligou o aparelho.

Sentou-se na cadeira, puxou a sanfona e tentou tocar. Os dedos tremiam. O fole abriu e fechou sem som. Pela primeira vez, não conseguiu imitar Luiz Gonzaga.

Mas, naquela noite, resolveu tentar outra vez. Levou a sanfona pra calçada. Sentou-se no banco baixo, de frente pra rua deserta, fechou os olhos, e puxou, com o resto de força que ainda tinha, Assum Preto.

O fole gemia baixo, como se também conhecesse a dor. A melodia saía quebrada, triste, arrastada — não era mais música, era lamento.

Quem passou na rua diminuiu o passo. Quem ouviu o canto abriu a janela. Era como se todos entendessem o sofrer do bom homem, sem saber o porquê.

Quando o dia clareou, encontraram Sanfona sentado, quieto, o instrumento aberto no colo, os olhos fechados, como quem adormecera dentro da própria canção.

Diziam que, no instante exato da morte, um acorde ainda ecoou pela rua — triste, comprido, perfeito.

Como se a música tivesse resolvido partir junto com Sanfona.

O acorde fora emocionante, em tom de despedida, como a partir para a Eternidade.

Desde então, aquela rua nunca mais foi a mesma.

Antonio Carlos Valadares – advogado