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Quem ouviu falar do Capitão Virgulino, o Lampião, um celerado que aterrorizava o Nordeste, sabe que naqueles tempos não era seguro morar no interior, especialmente em pequenas cidades, povoados ou fazendas.A proteção policial quase não existia. No quartel de polícia eram destacados poucos soldados, o delegado não contava com transporte, as armas nem se compararam com as usadas pelos cangaceiros. Os fuzis e os revólveres que os soldados recebiam, além de superados, quase sempre não dispunham de balas suficientes para o municiamento de suas armas. A soldadesca não tinha treinamento especializado para lidar com cangaceiros. Os policiais, ao ouvirem notícias de que Lampião estava chegando, raros os que ficavam na delegacia. Alguns saiam correndo, “vou ali, chego já”, e se embrenhavam na mata tremendo de medo e não mais voltavam.
A luta era desigual. Afinal, o primeiro alvo a ser neutralizado, quando a cabroeira entrava na povoação era a Delegacia, a qual, em nada podia ser comparada a uma “força armada”. O soldado que ali estivesse, podia ser humilhado ou baleado sem dó nem piedade. O maior prazer de Lampião era humilhar e matar “macaco”, apelido que atribuía a soldado da polícia militar por conta da perseguição tenaz que lhe movia a volante.
As armas usadas por Lampião e seu bando eram de excelente calibre e modernas para a época: fuzil mauser, pistola Luger P08 – o famoso parabellum (encontrada com Lampião em Angicos), a espingarda winchester, o revólver colt cavalinho , e a pistola FN (Browming 1910), uma arma curta usada pelas cangaceiras.
Os cangaceiros por onde andavam ameaçavam e extorquiam.
Mas, apesar dos perigos e incertezas, existia quem comprava fazendas na zona rural, atraído pelo preço convidativo, em face da fuga dos que tinham medo de viver por lá, e a possibilidade de criar gado com chances de ganhar dinheiro. O fazendeiro, para se proteger fechava os olhos ao histórico dos bandidos, e sempre que solicitado, mandava por algum coiteiro uma ajuda em dinheiro pra Lampião. Desse modo o rei do cangaço não o molestava. Era um vínculo oportunista. Interesse de mão dupla. O fazendeiro continuava a tocar suas atividades sem sofrer represálias e Lampião sabia que naquele recanto, caso estivesse fugindo da perseguição da volante, poderia homiziar-se abrigando a cabroeira por alguns dias, matando reses para alimentá-la e recebendo abrigo para dormir e descansar. Depois do descanso Lampião voltava a percorrer o sertão.
O tropel dos cavalos e os gritos apavorantes dos cangaceiros, tendo à frente Lampião, provocavam na gente simples do sertão medo e pavor, o mato ficava apinhado de homens, mulheres e crianças fugindo a pé, carregando trouxas e utensílios na cabeça ou na garupa de suas montarias. O jegue e o burro eram os animais preferidos pelo sertanejo.
O coitado do fazendeiro recebia uma mensagem aterradora em papel de cigarro, escrita mais ou menos assim: “Coroné vosmecê deve enviar 50 mi réis pelo portador no contraro vou aí pegar com meus cabra assina Capitão Virgulino Ferreira O Lampião”.
Dali, quando a volante apertava o cerco, os meliantes, se entrincheiravam em montes rochosos, preparavam uma cilada apontando as armas e atirando nos soldados. Durante o tiroteio, soltavam gritos como arma de intimidação, chamava-os de “macaco”, “tome, fio de uma égua!”, “fio do corno”, “lá vai bala no bucho caquento!”.
Depois de um ligeiro combate, como mestres em guerrilha corriam para o Razo da Catarina, área quase impenetrável da caatinga, as mais das vezes obrigando-os a cortar com seus facões na mata arbustiva densa, cactos, mandacarus ou xique-xique para abrir caminho na fuga desesperada. Para se protegerem dos espinhos vestiam roupas de couro.
Para curar feridas, tosses , incômodos intestinais, bronquite e trato urinário, usavam plantas da flora da caatinga com propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antimicrobianas como o mastruço, e óleos vegetais como o óleo de copaíba.
Nesse lugar inóspito, os cangaçeiros aproveitavam o intervalo de suas refregas e emboscadas contra a volante, e contra as populações indefesas para tratar das feridas, faziam festas, animadas pela sanfona, dançando o xaxado e empunhando os fuzis, bebendo cachaça, jurubeba ou cinzano até alta madrugada.
Quando tinham a sorte de matar um veado, depois de esquartejá-lo, colocavam-no no fogo entre duas forquilhas e comiam à vontade essa iguaria, enfiando o punhal, tirando um pedaço de carne e melando na farinha.
Sempre carregavam no bornal, onde estivessem, carne seca e rapadura para amenizar a fome. O mandacaru podia oferecer-lhes água para beber e matar a sede, como também para alimento na escassez de outros nutrientes.
Com o advento do Estado Novo, regime ditatorial chefiado por Getúlio Vargas, a perseguição ao cangaço – que ainda infestava a região Nordeste-, tornou-se uma questão de honra do governo.
No dia 28 de julho de 1938, Lampião e Maria Bonita, e vários de seus cangaçeiros que dormiam na Grota de Angicos (hoje Poço Redondo-SE), todos desprevenidos, recolhidos tranquilamente em suas barracas, foram emboscados pelo tenente João Bezerra e sua tropa.
Dos 35 cangaceiros, 24 deles conseguiram escapar, morrendo, no entanto 11, entre eles, Lampião e Maria Bonita, que foram fuzilados sem possibilidade de defesa. Lampião era a prioridade da matança. Foi por isso que a maior parte dos cangaceiros conseguiu safar-se da emboscada.
A traição partiu de um coiteiro conhecido por Pedro Cândido que levou a polícia até o esconderijo de Lampião, onde estivera várias vezes sem ser descoberto pela volante.
Os mortos foram degolados como prova, já que havia um prêmio no valor de 50 mil réis, pela apresentação da cabeça de qualquer integrante abatido do bando de Lampião.
Após a chacina, as cabeças foram inicialmente expostas para o público em Piranhas (AL), indo afinal para o Museu do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, até o ano de 1969. Com o ingresso de uma ação movida na Justiça por Expedita, única filha de Lampião e Maria Bonita , os crânios foram finalmente liberados para sepultamento no Cemitério Quinta dos Lázaros.
Expedita, no entanto, teve o direito de receber os crânios de seus pais e os guardou por muitos anos. Em 2021, os crânios foram doados para o departamento de Patologia da FMUSP. Através de estudos e análises ali realizados os crânios de Lampião e Maria Bonita foram reconstituídos.
PARTE 2 – DO BANDITISMO DE HOJE
Como vimos, nos tempos de Lampião a população do interior vivia em intensa agitação e nervosismo, as famílias fugindo para a cidade grande na busca de segurança.
Hoje em dia, cidades grandes como S. Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte , Salvador, Recife, Fortaleza, só para citar essas, vivem situação de violência como nunca elas sentiram em outros tempos. A televisão estampa diariamente a repetição de atos que se comparam a uma batalha entre o Estado constituído e os marginais que parece não ter fim.
Tanto no interior como nas grandes e pequenas cidades, outra forma de banditismo aterroriza a população em escala infinitamente maior, com assaltos a mão armada, violência e crueldade, desafiando a ação dos poderes públicos.
Cada facção ou bando tem um chefe e os seus lucros proveem das mais variadas formas para lavagem de dinheiro: participação em lojas de shopping, padarias, postos de combustíveis, , roubo de cargas, assalto a bancos, contrabando de armas, ataques a ônibus, assassinatos sob encomenda, tráfico de drogas, milícias, desmonte de carros roubados, furto de celulares, e mais um sem número de atividades ilícitas.
O PCC e o Comando Vermelho, sustentam e comandam uma rede de crimes e corrupção muito superior à máfia italiana. Alguns de seus líderes, ainda que incomunicáveis em prisões de alta segurança atuam na cadeia direcionando para seus membros planos para o cometimento de crimes em ações espetaculares só vistas em filmes produzidos em Hollywood.
Apesar do aparelhamento caríssimo dos órgãos do Estado, que consomem bilhões do orçamento, a exemplo do Ministério Público, Defensoria Publica e Justiça, e da complexa estrutura da polícia, com armas e balas em profusão, investigação técnica da melhor qualidade, aviões, ônibus, vans para transporte emergencial da tropa, helicópteros de combate e várias formas de prevenção e luta contra a criminalidade, inclusive contando com a inteligência artificial – ainda assim, a violência não escolhe lugar para acontecer.
O Congresso Nacional, por sua vez, que aprisiona e freia o poder do Presidente da República e dita as leis, não consegue evitar ou sequer minimizar a criminalidade. Ao contrário, tenta impedir a abertura de processos criminais contra membros do Parlamento, e reverte em seu favor R$ 50 bilhões do orçamento federal em emendas, assegurando a reeleição de deputados e senadores.
Enquanto isso, conexões entre organizações criminosas se fortalecem, e mesmo que algumas delas sejam desbaratadas e seus líderes recebam altas punições, outras surgem como um câncer em metástase se espalhando pelo organismo da Nação.
A conquista civilizatória, com paz, tolerância e prosperidade está longe de acontecer entre nós, mas em alguma época haveremos de tê-la um dia.