Crônica
Seu João, aos 80 anos, é uma figura conhecida e respeitada no bairro onde mora e trabalha. Dono de uma oficina mecânica modesta, construiu ao longo de décadas uma reputação sólida: competência técnica, honestidade no preço e respeito ao cliente. Qualidades raras em tempos de cobranças abusivas e serviços apressados.
Especialista na recuperação de motores de carros antigos, não se recusa a enfrentar os desafios dos veículos modernos. Executa ambos com o mesmo cuidado e eficiência, razão pela qual sua oficina permanece sempre movimentada — não apenas por clientes, mas também por amigos que ali aparecem para conversar enquanto ele trabalha.
Entre um ajuste no carburador, a troca de cabos de vela ou mangueiras do sistema de arrefecimento, Seu João participa das conversas, observa, opina. O ouvido atento acompanha o burburinho da oficina enquanto as mãos seguem firmes no serviço.
Seu conhecimento foi adquirido na prática, em cursos técnicos e oficinas de concessionárias. Com o mesmo zelo, transmite tudo o que sabe aos ajudantes mais jovens. Longe de ter ficado parado no tempo, percebeu cedo a necessidade de atualização. Buscou cursos na internet, aprendeu mecânica e eletrônica e passou a atender também veículos com injeção eletrônica.
Homem simples, sem formação acadêmica, orgulha-se dos filhos que ajudou a formar com o fruto do próprio trabalho: Édson, economista atuando em São Paulo, e Vera, médica cirurgiã em Aracaju.
Com saúde plena, raciocínio afiado e disposição intacta, Seu João começou a refletir sobre a velhice. Encerrar a atividade lhe pareceu impensável. O afastamento da oficina significaria abrir mão não apenas do trabalho, mas do convívio, do movimento e do sentido que sempre deu à vida.
Após conversar com a família, decidiu continuar no batente. Para ele, a ociosidade seria mais nociva que o esforço diário. A decisão foi recebida com alívio pelos clientes e com apoio dos familiares.
Em um país que frequentemente despreza a experiência e confunde renovação com substituição apressada, a escolha de Seu João é exemplar. Mostra que o novo não precisa eliminar o saber acumulado, mas dialogar com ele.
A aposentadoria, portanto, pode esperar.
Antonio Carlos Valadares – advogado

