Crônica
Houve uma época em que, ao final da década de 70, o Brasil passava por uma grave crise econômica que fora desencadeada pela elevação dos preços do barril de petróleo. Para contornar essa dificuldade o governo criou o pro-álcool para dar apoio às usinas nacionais e estimular a produção de veículos movidos a álcool.
Cliente da Discar, procurei um carro movido a gasolina, mas só tinha na concessionária fuscas a álcool. Mesmo reticente sobre a novidade, financiei o Volks junto ao Banco Itaú.
Deputado estadual, atento à minha base eleitoral principal, Simão Dias, depois de um final de semana na minha terra natal, que começava na sexta, no domingo retornava à noite para, na segunda, estar presente à primeira sessão da semana da Assembléia Legislativa.
Um certo dia, em mais um domingo de volta para Aracaju, parti de Simão Dias à noite, depois das 21 horas. Até a cidade de Salgado a viagem transcorria sem sobressaltos com o rádio ligado na Globo-AM para ouvir os comentários de Waldir Amaral sobre os jogos da rodada do campeonato carioca.
O Fusca, porém, não era exatamente um primor de desempenho. Logo deduzi que estava fora de tempo, e que, por isso, precisava de uma regulagem adequada no carburador. Ou seria por causa do álcool combustível que a sua velocidade não passava de 100 km\h?. Agora não cabia mais essa discussão. A escolha e a compra já haviam sido feitas. Pé na tábua, da maneira que der!
Percorridos uns 20 quilômetros, antes de chegar ao término da rodovia Lourival Baptista, visualizei pelo retrovisor do carro algo estranho: um veículo que parecia me seguir em alta velocidade, quase colando no fundo do fusca e piscando o farol insistentemente, dando a entender que eu deveria parar imediatamente.
Apertei o acelerador ao máximo, e quando pressenti que o carrão que me perseguia podia bater o seu pára-choque na traseira do Fusca, dei sinal e desviei para a direita, parando no acostamento, deixei o motor funcionando com a marcha no ponto morto e com o pé no freio.
Percebi que estava a cerca de um quilômetro da Br- 101, bem perto do viaduto que tem os letreiros da Rodovia Lourival Baptista. Num átomo de segundo pensei comigo: “pode ser a minha rota de fuga, se eu escapar daqui!”.
Observei que era uma Chevrolet D-20. O motorista parou no acostamento distante uns 5 metros, à minha frente. Desligou as luzes e deixou o motor parado. Abriu a porta e desceu.
Com as luzes do fusca acesas, pude notar que a D-20 tinha uma mulher na cabine.
No asfalto iluminado, percebi que o homem que vinha na minha direção jamais eu o havia visto.
Foi então que o instinto de sobrevivência falou mais alto. Sem hesitar, engatei a marcha, acelerei com força e joguei o Fusca em direção ao desconhecido. Para não ser atropelado, ele se lançou para a esquerda da pista. Aquela manobra me deu a brecha necessária. Pressionei o acelerador como pude, o Fusca rodopiou no asfalto queimando pneu, bufava soltando cheiro de álcool que saia do tanque direto para meu nariz. Sai dali como um raio, contando os segundos para chegar em trecho seguro da rodovia federal.
Aquilo demorou pra mim uma eternidade, tal a pressa como eu queria safar-me daquela aflição.
Para minha tranquilidade, consegui chegar na BR-101, passei na frente de um caminhão e direcionei o Fusca bem na frente dele, agora me sentindo bem protegido, com as mãos tremendo ao volante, mas com a certeza de que havia me livrado do perigo.
Alguns quilômetros adiante, parei no primeiro posto da Polícia Rodoviária Federal. Relatei ao agente a perseguição que sofrera. O que ele me disse, em seguida, fez com que eu erguesse as mãos ao céu e agradecesse a Deus.
Embora aquele trecho entre Salgado e a BR-101 não fosse da jurisdição da PRF, e sim, da jurisdição do Estado, o agente mencionou ser muito perigoso trafegar por ali durante a noite. Naquela região, o boato corria solto sobre mortes estranhas e misteriosas com o desaparecimento de veículos e de motoristas.
Meses depois, a imprensa noticiou que um casal de assaltantes fora morto em confronto com a polícia. Escondiam-se numa casa próxima ao fim da rodovia Lourival Baptista.
O povo passou a comentar que nas escavações ao redor do imóvel, foram encontrados restos humanos. Mais de uma dezena de esqueletos. O lugar, segundo as falas do povão, era um cemitério sem nomes e sem cruzes.
Ainda hoje me arrepio toda vez que passo por aquele trecho da estrada, a memória me leva de volta àquela noite sinistra e apavorante — quando, por um sopro de instinto e coragem, consegui escapar da morte certa.
Antonio Carlos Valadares – advogado, ex-governador e senador


